#69 Serafim Ponte Grande

Título: Serafim Ponte Grande

Autor: Oswald de Andrade

Primeira publicação: 1933

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Globo

“Serafim, a vida é essa.”

Figura de destaque do cenário artístico brasileiro na primeira metade do século XX, Oswald de Andrade articulou nossa identidade cultural com propostas vanguardistas e experimentais. Pregando a antropofagia estética e a liberdade ideológica, o paulista foi autor principalmente de poesia e teatro, também contribuindo para várias revistas e jornais, além de organizar e fundar seus próprios periódicos com a ajuda e influencia de amigos. Todavia, foi com a prosa ficcional que o escritor empregou com maior ênfase a crítica debochada ao purismo da sociedade e a desconstrução dos padrões literários então vigentes. A interessante narrativa de Serafim Ponte Grande, concebida por ele entre os anos de 1925 e 1928, foi encarada mais tarde não como um romance, mas como uma verdadeira “invenção” textual de estrutura extremamente diversa e maleável.

O caráter contestador e subversivo do volume começa desde a organização de seus componentes bibliográficos: a indicação de outras obras do escritor recebe a designação do que seriam “Obras renegadas” por ele, assim como se atribui a uma Errata a posição e a importância de um capítulo, enquanto no lugar da chancela de propriedade autoral e editorial, aparece a mensagem “Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado em todas as línguas”. Na última página, o Colofão – a prescrição da data de elaboração do impresso – informa que o livro havia sido “escrito de 1929 (era de Wall-Stret e Cristo) para trás”.

O livro é composto de duzentos e três fragmentos curtos agrupados em onze seções, abarcando a narração tanto em terceira como em primeira pessoa. Tais “pedaços” se apresentam através da justaposição de diferentes estilos e gêneros, assumindo ou parodiando a configuração de poemetos, noticiários, roteiros teatrais, cartas, crônicas, abaixo-assinados, necrológios, diários de viagem e até de verbetes em um dicionário (com anotações que alcançam à letra “L”). O enredo é centrado nas peripécias da figura-título, um funcionário público do serviço sanitário paulistano que tende ao anarquismo. Acompanhamos sua trajetória desde a infância, passando pelas descobertas eróticas da adolescência e o casamento forçado com a jovem Lalá após tê-la “deflorado”. Neste momento, o protagonista, que já era burocrata e professor de geografia, deu inicio a uma rotina conjugal marcada por intenso tédio, entre outros dissabores domésticos, incluindo o nascimento dos rebentos.

Cansado daquela realidade amarga, com sonhos de grandeza e ardente apetite sexual, ele se apaixona pela prima Dorotéia, sem perceber que a esposa se aproximava de seu camarada Manso. Não correspondido pela dançarina e sem conseguir reconquistar a cônjuge, acaba sozinho próximo ao deflagrar da Revolução Paulista de 1924. É quando o filho mais velho, Pombinho, se mete com os revolucionários e os ajuda a esconder uma grande quantia em dinheiro. Serafim rouba o montante e foge para o exterior, sem antes deixar de matar o chefe de sua repartição, o odioso Benedito Carlindonga, com um tiro certeiro de canhão. A longa viagem do novo-rico atravessa a Europa e o Oriente, sendo abarrotada de situações absurdas. O percurso ainda envolve outros desamores e reencontros inesperados, até culminar no fatídico retorno do personagem ao Brasil.

Os papeis secundários, que aparecem e desaparecem sem qualquer explicação, funcionam como eficientes vias para a realização de uma poderosa sátira social. Dentre eles, ressalta-se o irreverente Pinto Calçudo, um típico bajulador da burguesia que, por em alguns momentos tomar mais espaço que o novo-rico Serafim, impondo-se à consideração do leitor, acaba literalmente expulso da narrativa. Adiante, ele ressurge a bordo do navio El Durasmo instituindo os ideais antropofágicos. Junto com os outros tripulantes, ele abandona o modelo conformista ocidental e retorna aos instintos mais primitivos, defendendo a liberação dos impulsos carnais e o nudismo.

Além do emprego de neologismos, estrangeirismos e formas variantes próprias da coloquialidade da época, o autor aqui abusa da linguagem concisa e da supressão de elementos discursivos, contribuindo para a fruição da leitura ao mesmo tempo em que chama a atenção para outros sentidos sugeridos nas entrelinhas do escrito. No fim, a impressão aparentemente caótica advinda de uma mistura inusitada de “cacos” narrativos dá lugar à assimilação de um criativo pastiche literário. O engenho deslizante evoca uma especial autonomia interpretativa.

Este trabalho extremamente simbólico e provocador marca o auge produção de Oswald de Andrade, desestabilizando e problematizando com um humor lúcido os fracos valores da hipócrita classe abastada nacional, a qual ele também fazia parte.

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Referências Utilizadas:

ANDRADE, O. Serafim Ponte Grande. São Paulo: Globo, 2007. (Obras completas de Oswald de Andrade)
ISBN: 9788525042224

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6 Comentários

  1. rogéria

     /  23 de julho de 2016

    grande livro

    Resposta
  2. Paulo Cazzmarro

     /  23 de julho de 2016

    Adoro Oswald. Pau-Brasil tbm deveria entrar na lista. Abs

    Resposta
  3. raquel

     /  23 de julho de 2016

    62 anos sem Oswald de Andrade e ele continua provocador.

    Resposta

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