#67 Memórias Póstumas de Brás Cubas

"Memórias póstumas de Brás Cubas"Título: Memórias Póstumas de Brás Cubas

Autor: Machado de Assis

Primeira publicação: 1881

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Scipione

“Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.”

O carioca Machado de Assis sempre será um dos mais importantes escritores da literatura nacional. Prolífico em todos os gêneros, à semelhança de todos aqueles que queriam viver das letras no século XIX, ele subiu os degraus da ascensão criativa publicando seus textos em alguns dos maiores periódicos da época, como Marmota Fluminense, O Cruzeiro e Gazeta de Notícias. O escritor acompanhou de perto a vida social, política e cultural do país, registrando suas transformações com olhar arguto. Sua retórica marcante, a grande audácia para o trato com a realidade urbana oitocentista e a profunda análise da alma humana são aspectos que continuam a fascinar e intrigar muitos leitores. O romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, um dos mais celebrados da produção machadiana, foi editado em folhetim de março a dezembro de 1880, na Revista Brasileira, sendo lançado em livro no ano seguinte. O livro apresenta as lembranças de um narrador já morto (como indica o título) através de uma estrutura múltipla e não linear, que brinca com o ridículo e o sublime num processo metalinguístico repleto de ironia.

A narrativa autobiográfica de Brás Cubas começa justamente com o seu falecimento, aos sessenta e quatro anos, em decorrência de uma pneumonia, sendo dedicada ao verme que principiou a decomposição de seu cadáver. Filho de uma típica família burguesa do Rio de Janeiro, ele teve a presença de apenas onze pessoas em seu cortejo fúnebre e enterro. O personagem indica que seu martírio foi assistido por três mulheres: a irmã Sabina, a sobrinha Venância e Virgília, de quem foi noivo quando jovem. Antes de explicar as circunstâncias desta particular situação, ele descreve os melindres de sua última obsessão, a criação de um medicamento anti-hipocondria – foi desenvolvendo o tal emplasto que levaria o seu nome que o narrador contraiu a doença que o levaria a óbito. Em seguida, introduz propriamente o desenrolar de suas memórias, desde o nascimento e os primeiros anos enquanto menino rico, mimado e travesso. Desta fase em especial, destacam-se os momentos que revelam sua mediocridade moral e feição anti-heroica já na tenra idade. Além disso, vemos um retrato sagaz da infância bem nascida no Oitocentos, muito abusando dos criados.

O período mais significante do livro, entretanto, é o da juventude do protagonista, salientando seu caso inconsequente com a cortesã Marcela (que quase dá cabo da fortuna da família), sua ida forçada à Europa, de onde volta formado e com hábitos boêmios, além do envolvimento com Eugênia, moça bonita e pobre a qual o controverso narrador acentua o defeito de ter uma das pernas aleijada. Também é aqui que Cubas inicia a relação amorosa com Virgília, que acaba casando-se com o pomposo Lobo Neves. O personagem principal passa a compensar a desilusão na ambição política e literária, sem prever que mais tarde teria algumas surpresas a partir do reencontro com figuras do passado.

Os cento e sessenta capítulos curtos da obra jogam com a expectativa de quem lê e fluem vagarosamente, seguindo o ritmo descontínuo de pensamentos do finado narrador, não respeitando uma determinada sequência cronológica dos fatos. Reavaliando o caminho percorrido ainda vivo, Brás Cubas assume uma posição de monopólio e onisciência sobre o texto, bisbilhotando todos os elementos de seu interesse com fixação pelo pormenor. Ele constantemente suspende seu discurso e dirige-se diretamente aos seus interlocutores para tecer reflexões paralelas acerca dos mais variados assuntos, comentando excertos de outros livros, apontamentos de filósofos, dizeres populares, expressões estrangeiras e o respectivo enredo do livro. Nesta perspectiva, as divagações também abarcam o próprio fazer literário, com Machado fazendo o leitor sentir-se mais próximo do complexo processo de construção de um romance.

O autor conhecia muito bem os hábitos de leitura do seu público e as referências que integravam quase todos os seus escritos, mesmo quando submetidos a padrões mercadológicos, guardavam um possível cuidado com a formação intelectual dos que os consumiam.  Em Memórias Póstumas, ele os convoca para preencher as lacunas e omissões empregadas, por exemplo, nos capítulos LV, “O velho diálogo de Adão e Eva”, e CXXXIX, “De como não fui Ministro de Estado”, compostos apenas por reticências. A crítica aos costumes fúteis e triviais da alta sociedade também é feita de forma sutil e bem-humorada, aguçando a percepção dos que acompanham a narrativa para a denúncia da vaidade, hipocrisia, egoísmo e volubilidade dos abastados. Além disso, há espaço para a discussão de temas pertinentes à ocasião em que a obra circulou, como a diplomacia, o casamento, o dinheiro e a escravidão.

A exteriorização de uma aparente visão cética e desencantada tanto do mundo o qual pertenceu, quanto de si mesmo, caracterizaria ingenuamente o relato de Cubas pela isenção e imparcialidade de quem não teria a necessidade de mentir ou manipular o que é narrado por abandonar a preocupação com o julgamento de seus contemporâneos. No entanto, podemos verificar que a falsa franqueza encobre um sujeito fraco, orgulhoso, exagerado e incoerente, tentando se mostrar superior ante uma vida sem grandes acontecimentos e realizações. No fim, ele e é apenas mais um homem comum, que de tudo tentou e nada deixou.

Vale ressaltar a participação na trama do incrível Quincas Borba, personagem que ganharia relevo central em outro livro de Machado de Assis. Antigo colega de escola de Brás Cubas, ele exerce uma grande influencia no protagonista, partindo de observações da realidade cotidiana, como a briga entre dois cães de rua, para apresentar a interessante teoria filosófica do Humanitismo.

Nosso grande mestre da palavra entrega uma obra irretocável que avalia com pessimismo a perenidade da existência. Por meio de um inesquecível narrador além-túmulo, ele conseguiu explorar a linha tênue entre a aparência e a essência, relativizando os melindres do avanço científico e as noções de verdade e razão.

Download gratuito do livro na biblioteca digital Domínio Público

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Referências Utilizadas:

ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Scipione, 2004. (Série Clássicos Scipione)
ISBN: 9788526255128

BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. pp. 174-181.

LAJOLO, M. Literatura comentada: Machado de Assis. São Paulo: Abril, 1980.

www.machadodeassis.org.br

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Filmoteca: Memórias Póstumas (2001). Filme dirigido por André Klotzel, com Reginaldo Faria, Petrônio Gontijo, Marcos Caruso, Stepan Nercessian e Sônia Braga. Brás Cubas (1985). Filme dirigido por Júlio Bressane, com Luiz Fernando Guimarães, Regina Casé e Wilson Grey.

A adaptação cinematográfica assinada por André Klotzel caracteriza uma tradução próxima à unidade central do romance de Machado, reorganizando a narrativa e tornando-a mais convencional e mastigada, ainda que mantenha os diálogos quase literalmente. Dando ênfase ao relacionamento entre o protagonista e Virgília, o filme não perde, contudo, o caráter satírico e imaginário através da interferência de um narrador fantasma que observa seu eu vivente em flashback, congelando a imagem para traçar seus comentários. Aqui, a interpretação de Reginaldo Faria ressalta a personalidade egocêntrica e enfadada de Brás Cubas. Já a “transcriação” de Júlio Bressane é mais experimental, utilizando curiosos recursos visuais e não se detendo tanto à fidelidade do texto machadiano, mas à cuidadosa exploração intersemiótica de sua estrutura fragmentada e metalinguística. O longa-metragem é ainda marcado por intensa intertextualidade, como na irônica cena em que Lobo Neves apresenta o escritor fluminense a quatro jovens que atendem pelos nomes de Tarsila, Anita, Pagu e Cecília, como as famosas personalidades femininas do Movimento Modernista que tanto refutou a produção artística do século XIX. Destaco a inserção de composições de Noel Rosa, Luiz Gonzaga e Haroldo de Campos como estratégias narrativas em diferentes momentos do filme, lançando informações que chegam a substituir o que seriam falas dos personagens e sequências inteiras do livro.

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7 Comentários

  1. Nilton Braga

     /  29 de junho de 2016

    Bela resenha desse que é um dos meus livros favoritos. Sônia Braga rouba a cena como Marcela, sempre maravilhosa!

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  2. Segredo: nunca li esse livro! Rs Dá até vergonha de dizer isso, mas até o fim do ano acho que corrijo isso :)

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  3. Era leitura obrigatória em meu tempo.
    Parabéns por divulgar literatura brasileira.

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  4. Esse romance é maravilhoso. Como todos os outros de Machado de Assis. Parabéns pela resenha. Tenho certeza de que quem ainda não leu o romance, após ler esta resenha vai ficar curioso para conhecer a história de Brás Cubas. ;)

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  5. É um dos melhores livros dele e a atuação de Reginaldo Faria está excepcional neste filme. Tive a sorte de assisti-lo na TV Cultura quando estava zapeando minha telinha. Seu texto é ótimo.

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  6. Na época da minha graduação, tive de ler e de produzir um ensaio sobre esse livro. Sempre tive ressalvas com Machado de Assis: percebia nele um grande escritor, mas não um escritor tão grande a ponto de estudiosos de literatura elegerem seu cânone como o mais importante da literatura brasileira.

    “Memórias póstumas de Brás Cubas” tem toques de genialidade, há nele recursos estilísticos muitíssimo bem trabalhados em suas páginas. Contudo, para mim, há um grande pecado, que costuma ser comum nos autores de primeiro escalão: o enredo é pobre, é quase uma casca sobre a qual são trabalhados ornamentos.

    Utilizei a palavra pecado pelo seguinte motivo: quando a situação se inverte, um texto tem um enredo intrincado e poucos recursos estilísticos, a crítica é extremamente dura. Gosto de pensar que as duas maneiras de escrever são ótimas, cumprem objetivos diferentes e são dirigidas a públicos distintos.

    Como você mesmo destaca, Machado de Assis é um autor que vale a pena ser conhecido; e, como o projeto de seu blog atesta, há inúmeras obras além do cânone esperando para ser lidas.

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  7. Lembro-me bem que esse foi um dos primeiros livros brasileiros a me cativar a atenção. Eu já era leitora assídua quando fui introduzida no mundo mágico da literatura brasileira e me entristece ela ser tão pouco enaltecida. Projetos como o seu, então, devem ser ovacionados. Vim correndo procurar essa resenha em questão porque me apaixonei por Cubas e todos os seus defeitos ainda muito jovem. Parabéns pelo texto e a excelente análise.

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