Literafilia: Sobre Poesia Marginal

No Brasil dos anos 1970, o regime militar ao mesmo tempo em que tentava proibir qualquer tipo de produção e comportamento que pudesse causar dano à sua estrutura, acabava por incentivar o surgimento de impactantes movimentos culturais atrelados à emergente juventude nacional.  Em meio a um ambiente de repressão, violência e vazio criativo, a nova geração sofreu uma metamorfose comportamental, ganhou voz e grande expressão, originando importantes rupturas em relação às concepções estéticas até então vigentes. O surto criativo que subverteu os padrões oficiais da literatura lançada na época adveio justamente do inconformismo com os moldes impostos pelas esferas acadêmica e política. A formação de uma poética “fora do sistema”, à margem da tradição, possibilitou a liberdade das amarras do conservadorismo intelectual através da escrita. Os versos sujos e irreverentes de notáveis desconhecidos ganhariam, mais tarde, respeitável destaque na historiografia de nossas letras, influenciando e inspirando, inclusive, muito do que é feito na contemporaneidade.

O termo “marginal” pode remeter tanto à abordagem de temas e figuras da periferia social, como à posição afastada do cânone e à forma de publicação e divulgação dos impressos no período. Em contraposição ao mercado editorial fortemente instaurado, os autores, utilizando a máquina de datilografar e o mimeógrafo (aparato para realizar cópias em papel, a partir de um original escrito ou desenhado em relevo), produziam os seus trabalhos de forma artesanal e em pequenas tiragens de baixo custo. Sem o auxílio de livrarias e distribuidoras, a circulação alternativa dos escritos se mostrou ágil, considerando o seu caráter mais acessível através da venda de mão em mão. Os poemas eram reproduzidos em folhetos, cartões, livretos, cartazes e livros-envelope que desafiavam a configuração tipográfica corrente, tendo como pontos de comercialização os mais variados lugares frequentados pela efervescência estudantil, como universidades, praças, bares, portas de teatro e salas de cinema. Outro forte aspecto era a fabricação cooperativa do material mediante a tática de coleções e associações entre os poetas, que juntos ainda se apresentavam em saraus e participavam na edição de revistas e outros periódicos de vanguarda. A atuação da marginália literária ocorreu em todo o território nacional, marcando presença em Curitiba, Brasília, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, etc.

A Geração Mimeógrafo, como ficou conhecida, apresentou poetas independentes que compartilhavam suas ideias sem se preocupar com as amarras do conservadorismo, a permanência e o reconhecimento da crítica, seguindo a premissa do artista plástico e performático Hélio Oiticica: “Seja marginal, seja herói”. O compromisso destes inventores da palavra era com a representação ácida do cotidiano urbano e o registro da subjetividade juvenil nos chamados “anos de chumbo”.

O experimentalismo técnico agregava o improviso, a fragmentação, a piada, o pastiche, o intercâmbio entre gêneros, os palavrões, as gírias, os estrangeirismos e as expressões de coloquialidade sem qualquer enquadramento formal. Tais recursos facilitavam a efetiva reaproximação da poesia com a oralidade e a linguagem espontânea, em composições breves ou extensas de forte apelo visual que refutavam a densidade de interpretação ou a exigência de um leitor “qualificado” para a plena fruição do texto.

A emergência da poesia marginal não aconteceu sem conflitos, provocando uma forte reação negativa. Muitos a consideravam descartável, superficial e até “alienada”, apontando a falta de qualidade ligada ao aparente perfil despretensioso como o principal fator de sua exclusão do tabuleiro institucional. Entretanto, em 1975, a vertente começou a ser debatida nos circuitos oficiais através da publicação de 26 Poetas Hoje, coletânea organizada pela pesquisadora Heloisa Buarque de Hollanda com amostras de Chacal, Capinan, Leila Míccolis, Geraldo Carneiro, Francisco Alvim, entre outros. A obra firmou-se como o primeiro estudo teórico sobre o fenômeno cultural, levantando questionamentos acerca da própria noção de valor literário. Sua enorme repercussão na imprensa especializada contribuiu para que, nos anos seguintes, os jovens poetas ganhassem espaço em palestras, feiras e exposições, motivando encontros de estudiosos e provocando a abertura de portas das grandes editoras para a poesia contemporânea.

Uma ótima porta de entrada para a poesia marginal brasileira da década de 1970 é a antologia Destino: Poesia, organizada pelo escritor e pesquisador Italo Moriconi, reunindo composições de Ana Cristina Cesar, Cacaso, Paulo Leminski, Torquato Neto e Waly Salomão, as cinco maiores vozes do movimento em apreciação popular. O ensaísta carioca reuniu os poemas mais significativos do quinteto, dando a dimensão transgressora da geração também na rica apresentação do livro. Estes talentosos poetas nos deixaram relativamente cedo (em momentos e por causas diferentes), mas seu legado certifica uma aproximação radical entre vida e arte, com a literatura servindo de suporte para a análise interior e a contestação coletiva.

O conjunto coletado por Moriconi explora a energia típica do movimento, marcado ora por euforia e celebração, ora por ironia e desencanto. O organizador aponta que a produção de Leminski e Cacaso estaria mais enraizada ao momento histórico da poesia marginal, sem ficar, por isso, datada pela atração que ainda exercem nos leitores iniciantes. Segundo ele, a escrita de Ana C. e Torquato, por sua vez, excederia as fronteiras temporais, determinando o ambiente poético dos períodos posteriores: a dela foi apropriada de maneira decisiva pelas mulheres poetas que a sucederam; a dele, ainda no final dos anos 1960, sedimentou o terreno da contracultura que abrigaria todos os demais. Já o estilo de Waly teria passado por transformações importantes, visto que foi o mais longevo (ele faleceu em 2003, aos 59 anos), mas mantendo a atitude rebelde ante as tendências dominantes.

Ainda em consonância a Italo Moriconi, um traço comum aos poetas do compêndio, com exceção de Ana Cristina Cesar (embora dê testemunho desse fato, como no poema “Samba-canção”), seria o contato direto com a música, principalmente no encontro com artistas do Tropicalismo, evidenciando o status formador que a MPB teve na constituição do fazer poético dos anos 1970. Quer nutrindo-se de canções ou exercendo a verve de letrista, quer tendo seus versos colocados em arranjos melódicos e interpretados por amigos ou admiradores, a poesia destes autores se perpetuou e foi celebrada por nomes como Jards Macalé, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Itamar Assumpção, Moraes Moreira, Ney Matogrosso e as bandas Titãs e O Rappa.

Com destreza, lucidez e percepção aguda da modernidade, a geração marginal, contraposta ao rigor modelar, revolucionou a indústria cultural nacional e continua conquistando leitores com o poder de sua poética.

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6 Comentários

  1. Ter que explicar o que é um mimeógrafo é algo, no mínimo, inusitado, rsrsrsr… Me veio à cabeça o cheirinho de álcool das provas. :p
    Interessante mesmo é que a literatura nunca foi tão fortemente abastecida como quando nos tempos da vida marginal. Atualmente presenciamos tanto fulgor, tanto aquecimento, tanto assédio por parte das editoras, em compensação, os livros nunca foram tão rasos, de vivência e conteúdo. :/

    Responder
  2. Adélia

     /  27 de junho de 2016

    Sou muito fã de Waly Salomão e Paulo Leminski. Adorei o post. Abs

    Responder
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