#64 Poemas Concebidos Sem Pecado

Título: Poemas Concebidos Sem Pecado

Autor: Manoel de Barros

Primeira publicação: 1937

Modalidade: Poesia

Minha Edição: Editora Leya

“Foi o vento quem embrulhou minhas palavras
meteu no umbigo e levou pra namorada?”

O escritor Manoel de Barros criou, através de seus versos, um universo ao mesmo tempo absurdo e palpável, expresso de uma maneira bastante particular. A sensível produção do mato-grossense, desconhecida do grande público durante muitos anos, começou a ser valorizada nacionalmente na década de 1980. Aos poucos, suas composições foram ganhando a atenção dos leitores e da crítica literária, recebendo constantes reedições. O autor acabou condecorado com diversos prêmios e reconhecido no meio editorial e acadêmico. O livro de estreia do poeta, Poemas Concebidos Sem Pecado, foi feito artesanalmente por amigos numa tiragem de apenas vinte exemplares, sendo relançado mais tarde em escala comercial.

A obra apresenta certa influência da estética modernista, principalmente através do combate à cadência estrutural fixa. Os poemas quebram com o modelo tradicional do gênero com a inserção de recursos narrativos próprios da prosa, como a presença de um narrador, personagens e diálogos. Percebemos também neste primeiro compêndio a interessante mistura de um vocabulário ao gosto clássico com expressões tipicamente coloquiais, subvertendo os padrões da língua mesmo que ainda não se paute no famoso “idioleto manoelês” comum aos trabalhos posteriores, cheio de especiais neologismos.

As construções poéticas são essencialmente agrupadas em três eixos: “Cabeludinho”, “Postais da Cidade” e “Retratos a Carvão”. No primeiro, os segmentos em verso narram fatos essenciais da vida do personagem-título, do nascimento à mocidade. Trata-se de uma figura de clara inspiração autobiográfica, envolta na mitologia do interior do Mato Grosso, pautada na realidade cotidiana e popular. Já o segundo e o terceiro conjuntos agregam poemas que traçam alguns perfis, cenários e situações típicas da região do Pantanal. As imagens originadas dos elementos simples e pessoas humildes da região mantêm a intrínseca relação com a memória de Manoel.

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Seu Margens

Seu Zezinho-margens-plácidas, célebre fazedor de discursos
patrióticos, agora aposentado, morava em seu
sítio denominado A Abóbora Celeste, numa curva da estrada
que procurava a Cacimba da Saúde.
Vendia passarinhos e demais produtos do sítio.
A gente negociava:
Seu Margens, dá duzentão de sabiá…
Vinham 3 sabiás: 2 de quiçaça e 1 de laranjeira.

(BARROS, 2010, p. 23)

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A coletânea manifesta a predileção pela infância, característica que permeia quase todas as publicações de Barros. O próprio nome já traduz para quem lê a feição singela dos versos, não necessariamente ligada à ingenuidade, mas à espontaneidade do pensamento e ao contato com a natureza. O baú de primeiras sensações e verdades inventadas revela um envolvente exercício de percepção do encanto presente nas pequenas coisas.

Ao final do livro, o arranjo habitual é novamente alterado, com o poeta evocando a musa inspiradora após o tecer de suas composições. É quando ele brinca com a importância dada a tal divindade no fazer poético enquanto problematiza a noção de cultura erudita.

Por meio da rica articulação entre a experiência pessoal e a experimentação técnica, Manoel de Barros expõe e dá cor local à origem de sua arte, atestando a beleza dos detalhes corriqueiros.

*Os versos que compõem a citação de cabeçalho pertencem ao segmento 11 de “Cabeludinho”.

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Referências Utilizadas:

BARROS, M. Poemas concebidos sem pecado. São Paulo: Leya, 2010.
ISBN: 9788562936302

www.fmb.org.br

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Filmoteca: Só Dez Por Cento é Mentira (2008). Filme dirigido por Pedro Cezar, com depoimentos de Manoel de Barros, Elisa Lucinda, Viviane Mosé e Adriana Falcão.

Indico este mágico documentário sobre a vida e a poesia de Manoel de Barros. O diretor, roteirista e narrador do filme, Pedro Cezar, conseguiu a façanha de entrevistar o autor ao vivo em sua casa, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Até então, ele preferia responder as perguntas dos jornalistas apenas por escrito. Alternando sequências desta conversa com versos de seus livros e depoimentos de familiares, amigos, admiradores e especialistas de sua literatura, a produção constrói um painel revelador da trajetória pessoal e artística do escritor. O longa utiliza uma linguagem visual bastante inventiva, empregando representações gráficas e pitadas de dramaturgia para ressaltar a delicadeza do universo extraordinário do poeta.

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5 Comentários

  1. Quero me casar com seu blog.

    Resposta
  2. Cadê você? hehe
    Bjs!

    Resposta

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