#62 Zé do Caixão: Maldito

Título: Zé do Caixão: Maldito

Autor: André Barcinski e Ivan Finotti

Primeira publicação: 1998

Modalidade: Não Ficção

Minha Edição: Editora DarkSide Books

“O que é a vida?
É o princípio da morte.”

O jornalista André Barcinski é reconhecido pelo trabalho voltado para as esferas cultural e artística em grandes veículos de comunicação, assinando seções nos jornais Notícias Populares, Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo e na revista Trip. Ivan Finotti também pautou sua carreira em colunas e reportagens vinculadas ao entretenimento e variedades, contribuindo para os jornais O Estado de S. Paulo e Diário de S. Paulo, além da revista Superinteressante. Ainda foi editor da revista Serafina e do caderno Folhateen. Juntos, os dois desenterraram todos os segredos da trajetória pessoal e profissional do cineasta José Mojica Marins, consagrado como o maior mestre do terror nacional através da famosa figura de um coveiro cruel e sádico. Com o livro Zé do Caixão: Maldito, eles atestaram toda a sua genialidade e legado artístico incomparável, abarcando mais de trinta filmes em mais de meio século de atividade.

De descendência espanhola, Mojica Marins herdou a impulsividade dos avós maternos e paternos, que largaram tudo em Madri e Barcelona para tentarem a sorte na São Paulo do início do século XX. Seus pais Carmem e Antônio, nascidos no Brasil, se conheceram em 1931, quando trabalhavam numa fabrica de cigarros. Os dois se casaram três anos mais tarde. O filho único do casal veio ao mundo em 13 de março de 1936, curiosamente, uma sexta-feira 13.

As primeiras experiências cinematográficas de José aconteceram desde a infância, nas matinês do pequeno cinema em que o pai trabalhava como gerente, o Cine Santo Estevão. A humilde família foi morar num puxado atrás do local de trabalho do pai, acirrando o contato do menino com a sala de projeção. Assim que aprendeu a ler, ele se interessou por quadrinhos e começou uma coleção de gibis. Logo passou a encenar peças com bonecos de marionete que ele mesmo fazia inspiradas nas histórias que lia ou em narrativas que imaginava. Ganhou a primeira câmera no aniversario de doze anos, fazendo sem demora vários vídeos com os amigos do bairro Vila Anastácio, material infelizmente perdido.

Adolescente, conseguiu montar um estúdio cinematográfico, a Companhia Cinematográfica Atlas, cuja primeira produção foi o média-metragem A Mágica Do Mágico (1945). Pagando a bagatela de cinquenta cruzeiros, qualquer pessoa poderia escolher sua função nos filmes, no elenco ou na parte técnica. Mais tarde, Mojica criou também uma escola de atores, recebendo cento e cinquenta cruzeiros mensais de cada aprendiz. Tratava-se de uma excelente estratégia para não pagar cachê ao elenco de seus filmes, aproveitando a dedicação dos alunos.

Depois de duas tentativas frustradas pela falta de dinheiro, lançou o primeiro longa, A Sina Do Aventureiro (1958), em projeto financiado por uma jovem viúva que queria tornar o irmão uma estrela do cinema. Foi o primeiro filme brasileiro filmado com a tecnologia CinemaScope no país (batizada por aqui de “Gigantela”). A fita também marcou a estreia do gênero faroeste no cinema nacional, incorporando elementos nativos numa produção bastante autêntica. Foi relançada anos depois em um cinema pornô, com cenas extras e dose extra de sexo, incluindo uma nova sequência passada num bordel, visando quitar o prejuízo do segundo filme, Meu Destino em Tuas Mãos (1962).

Para a divulgação do trabalho, Marins também se servia de vários truques, como mandar seus discípulos para filas de outros filmes e, chegando lá, elogiarem o produto ao qual haviam participado, em cartaz noutro cinema. José não teve formação acadêmica na área cinematográfica (nem em qualquer outra), aprendendo a fazer tudo sozinho, na marra, usando os recursos disponíveis e formando os próprios componentes de sua equipe técnica. Sua arte sempre foi muito intuitiva e apoiada na prática. Como um dos cineastas brasileiros mais produtivos, Mojica escreveu, dirigiu, produziu e atuou.

Ao contrario do que muitos pensam, o mórbido personagem Zé do Caixão não surgiu de uma preocupação com a demanda mercadológica, mas de um pesadelo. A figura de voz gutural, infindáveis unhas à semelhança de garras e trajes sempre escuros como a noite, incluindo capa e cartola, foi amadurecida com o referencial oferecido pelos atores Bela Lugosi e Boris Karloff. Ademais, não tratou-se de uma cópia de fórmulas estrangeiras, mas da constituição da imagem de um ser genuinamente brasileiro.

Para lançar o clássico À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), contando a busca do personagem pela mulher perfeita para dar a luz ao seu descendente, Mojica vendeu todos os móveis da casa e as suas próprias roupas, ficando só com uma calça e duas camisas. A difícil produção valeu a pena e o filme foi um temendo sucesso, inclusive de crítica. Ademais, por ditames legais, ele acabou não recebendo nenhum centavo da bilheteria, tendo de vender o filme para pagar dívidas. Mojica persistiu e lançou a continuação Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver (1966). Num período extremamente politizado, com a vertente do Cinema Novo se destacando pelos embates ideológicos, o personagem ganhou grande apelo e aceitação popular, mantendo-se vivo através de outros filmes, livros, cordéis, fotonovelas, gibi, peças de teatro e programas televisivos como Além, Muito Além Do Além e O Estranho Mundo De Zé Do Caixão, este último dirigido pelo grande Antônio Abujamra.

A censura sempre prejudicou a realização de suas ideias, impondo cortes que deixavam suas produções confusas ou classificando-as para faixas etárias que não condiziam com o seu conteúdo, o que influía diretamente nos horários de sua exibição e em seu recebimento pelo público. Além disso, sofria com a repreenda dos sacerdotes religiosos, que detinham de certo controle sobre os fieis e podiam orientá-los a não assistirem aos “filmes profanos”.

Contudo, a falência e o declínio de sua produção adveio de más decisões quanto aos contratos que assinava sem consultar advogados. Revoltado, saiu de amigo e amigo pedindo latas de negativos para fazer um filme como resposta a todos os produtores e distribuidores que se aproveitaram de sua imagem. O resultado foi Ritual Dos Sádicos (1970), seu filme mais corajoso esteticamente. A polêmica fita acabou apreendida por muito tempo pelos oficiais da Ditadura Militar. A estatização do cinema brasileiro pela Embrafilme na década de 1970 prejudicou ainda mais a sua situação. O cinema agora seria financiado pelo governo, que daria preferencia a nomes celebrados. Marins e o cinema independente tiveram que se virar. Ele começou a fazer pornochanchadas para distribuidoras da região da Boca do Lixo e muitos outros filmes eróticos por encomenda, que só serviriam para manchar sua reputação. O ressurgimento viria com aclamação em festivais e convenções internacionais.

Além do ofício, o livro conta sobre o seu envolvimento amoroso com Patrocinia Mataran Alcatraz, conhecida como Rosita Soler, uma dançarina de flamenco que também cantava nas rádios, além da aluna Maria, sua amante durante o casamento, e a jovem italiana Diomira Feo (conhecida pelo nome artístico de Nilcemar Leyart – Nilce), com quem teve um romance de quase trinta anos. Todas tiveram filhos do cineasta. Também destacam-se as interessantes passagens que que tratam dos problemas com o alcoolismo e a depressão, a rápida incursão pela política e a tentativa de criação de uma a seita.

O volume conta com uma larga coleção de fotografias e um prólogo escrito pelo também cineasta Rogério Sganzerla, nome por trás do célebre O Bandido da Luz Vermelha (1968), que chama o amigo José Mojica de “Drácula de botequim brasileiro”. Ao final, é apresentado um relatório com o mais completo levantamento a respeito da filmografia do artista, incluindo filmes amadores e inacabados, fruto da pesquisa realizada pelo jornalista Carlos Primati.

Barcinski e Finotti, através de uma exposição deveras objetiva, brindam o impresso com uma linguagem simples que em nada prejudica a seriedade na descrição dos acontecimentos. A fala de Mojica se faz presente em todo o arranjo textual, através de trechos de entrevistas. Os autores ainda demonstram preocupar-se em explanar sobre o contexto histórico por trás de cada fato narrado.

Abordando tanto a cronologia do criador como da criatura, duas entidades que hoje se completam, o livro torna-se indispensável para quem deseja conhecer e entender uma parcela da expressiva história do cinema nacional, decifrando as facetas de um artista genial, completamente apaixonado pelo que faz.

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Referências Utilizadas:

BARCINSKI, A. FINOTTI, I. Zé do Caixão: Maldito, a biografia. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2015.
ISBN: 9788566636789

www.uol.com.br/zedocaixao

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Filmoteca: À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964). Filme dirigido por José Mojica Marins, com José Mojica Marins, Magda Mei, Nivaldo de Lima, Valéria Vasquez e Ilídio Martins //  Maldito – O Estranho Mundo de José Mojica Marins (2001). Filme dirigido por André Barcinski e Ivan Finotti // Zé do Caixão (2015). Série dirigida por Vítor Mafra, com Matheus Nachtergaele, Maria Helena Chira, Walter Breda e Felipe Solari.

Convido os leitores a assistirem à estreia de Zé do Caixão no filme que inicia a saga do personagem em busca do gerar de um descendente. Também indico o documentário premiado no Festival de Sundance e desenvolvido pelos autores do livro. Trata-se de uma ótima produção que se utilizou da extensa pesquisa biográfica apresentada no impresso, agregando depoimentos de amigos, companheiros de trabalho e especialistas no legado do cineasta. Por fim, recomendo a série produzida pelo canal Space que resume os acontecimentos da vida de José Mojica Marins (interpretado magistralmente por Matheus Nachtergaele) em seis episódios corroteirizados pelo próprio André Barcinski.

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Musicoteca: A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (1980). Disco de Zé Ramalho.

O paraibano Zé Ramalho sempre foi um grande fã de Mojica, tanto que chegou a emoldurar uma das unhas de Zé do Caixão e pendurou-a em sua sala. Em 1979, convidou o cineasta para aparecer na capa e fotos internas do seu segundo disco, a ser lançado no ano seguinte. Este registro, recheado de composições enigmáticas que se tornaram verdadeiros hinos do cantor e compositor, como “Admirável Gado Novo”, “Garoto de Aluguel (Táxi Boy)”, “Beira Mar” e “Frevo Mulher”, é perfeito para acompanhar a leitura da biografia.

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3 Comentários

  1. A nova edição está lindona!!!

    Responder
  1. meus livros favoritos de 2016 | satãnatório

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