#59 Grito

Título: Grito

Autor: Godofredo de Oliveira Neto

Primeira publicação: 2016

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

“O grito funciona como a campainha anunciando o início do espetáculo.”

O escritor catarinense Godofredo de Oliveira Neto é radicado no Rio de Janeiro, onde é professor universitário. Com trabalhos consagrados pela crítica nacional e internacionalmente, ele demonstra-se detentor de uma sólida base literária aliada a um engenho criterioso e de agudo cuidado estético, conseguindo, ainda, abranger um público bastante diverso. Seu romance Grito utiliza-se de elementos ligados ao universo do teatro para tratar das fronteiras entre a realidade e a fantasia, apresentando o relato de uma atriz aposentada e sua intensa relação com um jovem que almeja o sucesso nos palcos.

A narrativa tem como cenário o bairro de Copacabana e é dividida em vinte e um atos cênicos, acompanhando as lembranças da idosa Eugênia. A narradora continua encontrando na manifestação artística uma via de ressignificação de sua existência, compartilhando de sua experiência de criação e performance com o vizinho de prédio Fausto, um atraente e inconstante aspirante a ator. O rapaz passa a frequentar o pequeno apartamento da veterana, com quem compõe e encena pequenas peças que ora se valem de histórias do seu agitado cotidiano, ora se respaldam na produção de grandes dramaturgos. Ele vive atormentado pelo pesar da morte da irmã e por problemas que tem em cada um dos empregos a que se aventura. Ademais, celebra cada nova conquista profissional com um grito, numa espécie de ritual que, simbolicamente, libertaria a voz engasgada na garganta da gêmea, que havia nascido morta. Na falta de melhores oportunidades, os sons guturais continuam ecoando diariamente de seu quitinete, dando vida a esse duplo que ainda o acompanha.

Comungando a paixão pelo exercício dramático, os dois personagens centrais do livro alimentam um vínculo de admiração e aprendizagem. Dona Eugênia vê em Fausto uma maneira de reviver as glórias do passado, parecendo rejuvenescer à sua presença. Ademais, conforme essa cumplicidade vai se desenvolvendo, os encontros vão excedendo a conjuntura mestre-aprendiz. A anciã fascina-se pela aparência e personalidade do mancebo, chegando a interpretar algumas de suas atitudes como insinuações eróticas. Dessa maneira, ela cria por ele certa dependência, evoluindo para um sentimento de posse e ciúme que os empurra em direção à tragédia.

A trama é pautada em muitas referencias a salas de espetáculo do Rio de Janeiro e à dramaturgia de Machado de Assis, Nelson Rodrigues, William Shakespeare, Oduvaldo Vianna Filho (Vianninha), entre outros grandes nomes da cultura teatral. O próprio Fausto traz traços alusivos à figura principal da brilhante peça homônima escrita em versos por Johann Wolfgang von Goethe, baseada na lenda alemã do homem de ciências que, desiludido com o conhecimento de seu tempo, faz um pacto com o demônio Mefistófeles em troca de progresso, também servindo de arquétipo para um romance de Thomas Mann, de outras peças concebidas por Paul Valéry e Alexander Pushkin, além da ilustre composição musical de Richard Wagner, todos citados no decorrer do livro.

O mais interessante da obra, contudo, é a estrutura textual proposta pelo autor, intercalando a singular narração de Eugênia – que se dá como se a senhora estivesse contando a história para outro interlocutor além do leitor, respondendo suas indagações e incorporando suas observações – com personagens e trechos de roteiros teatrais imaginados por ela ou elaborados juntamente com Fausto. Este arranjo experimental muito reflete o embate entre o fato e o delírio latente na perspectiva da protagonista de idade avançada, cujo discurso trepidante revela um jogo entre devaneio e certeza. O enredo é trabalhado com apoio na inconsistência: não sabemos se muitos dos acontecimentos são ou não fruto da imaginação da ex-atriz.

Unindo de forma audaciosa teatralidade e prosa poética, Oliveira Neto criou uma narrativa requintada e deveras atraente, dotada de linguagem fluida e incrível polifonia informacional. Uma pérola da nossa literatura que consegue traçar um significativo diálogo entre o canônico e o contemporâneo.

Entrevista com Godofredo de Oliveira Neto contando detalhes sobre o processo de escrita do livro no Blog da Editora Record.

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Referências Utilizadas:

OLIVEIRA NETO, G. Grito. Rio de Janeiro: Record, 2016.
ISBN: 9788501107015

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