#54 Budapeste

Título: Budapeste

Autor: Chico Buarque

Primeira publicação: 2003

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Companhia das Letras

“Naquele instante oco, com uma voz que não era a minha, lhe comuniquei: o autor do livro sou eu.”

Chico Buarque é decerto um dos mais importantes músicos do cenário cultural brasileiro. Compositor brilhante, o carioca, ademais, também merece ser lembrado pelo exímio trabalho como dramaturgo e escritor. Sua carreira é marcada pela alternância entre a produção literária e a musical, publicando os primeiros escritos ainda adolescente e abarcando gêneros diversos, como a novela, o conto, a crônica e a poesia infantil. Com Budapeste, ele explora o gênero romance para analisar a interessante figura de um autor anônimo de textos sob encomenda, discutindo importantes questões relacionadas à identidade desse profissional fantasma e ao seu papel no mercado editorial.

A obra é narrada pelo protagonista José Costa, escritor especializado na redação de trabalhos acadêmicos, cartas, discursos políticos, declarações, artigos e até livros completos a pessoas destituídas de tempo ou talento para as palavras, mantendo-se no anonimato enquanto os contratantes conquistam o reconhecimento e alcançam relativo sucesso. Junto com o amigo de infância Álvaro Cunha, ele fundou a “Cunha & Costa Agência Cultural”, empresa dedicada a esse tipo de serviço baseado no voto de confidencialidade. José vive no Rio de Janeiro na companhia de Vanda, uma famosa apresentadora de telejornais, com quem tem um filho. A mulher não sabe do particular ofício do marido, entendendo que a firma em que ele é sócio e proprietário oferece simples assessoria à escrita. O criador discreto, contudo, cultiva o prazer vaidoso de ver seus escritos publicados em grandes veículos ou recebendo importantes condecorações, mesmo que assinados por estranhos. Atinge o ponto alto de sua atividade invisível através de “O Ginógrafo”, a autobiografia do executivo alemão Kaspar Krabbe. No livro, consta que, ao chegar para fazer carreira no nosso país, o forasteiro aprendeu a escrever o português no corpo de uma amante, aperfeiçoando a arte nas curvas de prostitutas e jovens estudantes que faziam de tudo por sua atenção. O protagonista não imaginava, no entanto, que desconfiaria mais tarde de que sua esposa estaria seduzida por esse viés erótico da descrição apócrifa de Krabbe.

No meio secreto dos autores anônimos haveria a realização de congressos em que os mais ilustres entre os desconhecidos do mundo todo discutem reservadamente os problemas da categoria ao mesmo tempo em que divulgam seus triunfos invisíveis. Essas curiosas assembleias, formadas por motivadores de excelente vendagem ou produtores de “alta literatura”, se fazem acaloradas principalmente pelos embates de ego. Voltando de um destes encontros, dessa vez realizado em Istambul, na Turquia, o personagem principal é obrigado a fazer uma escala aérea na capital húngara. Pernoita em um hotel e acaba se encantando com a cultura, paisagem e idioma locais. De volta ao Brasil, num impasse criativo e existencial, percebe-se incomodado com sua realidade insípida e logo retorna ao cenário amarelo e frio de Budapeste, onde tece uma vida paralela.

Com o casamento em crise, José Costa acaba se envolvendo com a cativante Kriska, que também tem um filho pequeno, o Pisti. Ela lhe promete ensinar húngaro, popularmente conhecido como o único dialeto respeitado pelo diabo. É quando o protagonista consegue desenvolver a verve de poeta e passa a responder por Zsoze Kósta, apelido advindo do registro fonético da pronúncia de seu nome segundo a língua. Ademais, com as acirradas idas e vindas entre o escritório de Copacabana e as ruas do centro da Hungria, ele se vê dividido pelo amor de duas mulheres e preso a dois continentes diferentes.

Chico demonstra habilidade no manejar de significativas referências e analogias. A própria Budapeste que dá título ao romance demonstra-se um ótimo símbolo da dualidade do personagem narrador. Trata-se de uma cidade formada na fusão de outras duas, divididas pelo rio Danúbio: Buda, na porção ocidental, e Peste, no segmento oriental. Além disso, a capital húngara é terra de um importante monumento justamente em homenagem a um escritor anônimo, responsável por um essencial tratado da história do país. O enredo também se constrói no cruzamento entre a clara e fascinante língua materna de José Costa e o enigmático idioma húngaro, em que cada palavra lhe é uma singular descoberta no escuro.

Percebe-se que os inúmeros paradoxos que cercam as experiências do escritor oculto, indivíduo camuflado no outro, evidenciam o descompasso do próprio fazer literário, arraigado na invenção de um duplo do autor no papel. A elaboração de um livro dentro do livro e a troca de papeis na produção escrita são artifícios utilizados de maneira bastante provocativa no desenrolar da trama, culminando na amplitude interpretativa de diversas passagens. Em seu labirinto de conflitos e delírios, José Costa vai se revelando um ser inconstante, insatisfeito, incompleto, em constante busca de sua verdadeira identidade.  Ironicamente, apesar de narrar e protagonizar o romance, ele constitui de fato um personagem coadjuvante no universo das livrarias e editoras, sendo traído justamente pela obscuridade e omissão que defende, proporcionando aos seus clientes a autoafirmação que tanto anseia.

A linguagem empregada é ao mesmo tempo sofisticada e coloquial, combinando inesperadamente uma ampla densidade narrativa a um particular e atraente senso de humor. Essa conjuntura corrobora para a fluidez da leitura e para que o leitor mantenha-se atento às inventivas sacadas das entrelinhas.

Budapeste tem o mérito de expor as mazelas da esfera literária, evocando o lugar do livro enquanto produto destinado a uma demanda mercadológica, além de abarcar a reflexão aguda do real papel do escritor, desdobrando-se entre a sensualidade, a reinvenção de si mesmo e a paixão pela palavra.

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Referências Utilizadas:

BUARQUE, C. Budapeste. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2007.
ISBN: 9788535904178

www.chicobuarque.com.br

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Filmoteca: Budapeste (2009). Filme dirigido por Walter Carvalho, com Leonardo Medeiros, Giovanna Antonelli, Gabriella Hámori, Antonie Kamerling e Ivo Canelas.

O competente roteiro desta ótima adaptação cinematográfica conseguiu certamente captar o melhor de Budapeste. A produção é recheada de belos planos da capital húngara. É notória a atuação de Leonardo Medeiros, totalmente entregue aos sentimentos mal resolvidos do protagonista José Costa. Um detalhe interessante é que o próprio Chico Buarque aparece de surpresa numa cena do filme.

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6 Comentários

  1. Amei a resenha e já adicionei o livro aos meus desejados. Bjos ;)

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    • Fico feliz que tenha gostado do que escrevi e ainda mais por ter aguçado sua curiosidade pelo livro, Carol! Quando terminar a leitura, volta aqui e me conta o que achou! Grande abraço! :)

      Responder
  2. Não conheço o livro e não pretendo conhecer, pois estou numa fase de leituras mais amenas. Mas se no futuro eu vier a ler o livro, certamente me lembrarei dessa ótima análise, costurada de forma inteligente e transmitida através de palavras magistrais, através de uma escrita excelente, com certeza capaz de angariar leitores para a obra.
    Parabéns pelo talento, amigo. Se mantiver esse estilo, creio que será um bom crítico/resenhista.

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    • Muito obrigado mesmo pelo incentivo, amigo! Fico bastante lisonjeado com os seus elogios ao meu texto. Torço para que consiga realmente, através de meus comentários, angariar mais leitores para a Literatura Brasileira. Espero que logo você se aventure por esse livro fantástico. Grande abraço! :)

      Responder

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