#50 Luxúria

Título: Luxúria

Autor: Fernando Bonassi

Primeira publicação: 2015

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

“É um momento histórico de prosperidade num país acostumado a viver na merda.”

O versátil Fernando Bonassi sempre transitou entre a literatura e o audiovisual. Mais conhecido por sua prosa ficcional, além da poesia, com publicações voltadas tanto ao público adulto, como para o infantil e o juvenil, o paulista é cineasta de profissão. Ele dirigiu diversos curta-metragens e elaborou roteiros para produções que já se tornaram verdadeiros clássicos nacionais, como Carandiru, de Hector Babenco e Cazuza – O Tempo Não Para, de Sandra Werneck e Walter Carvalho. Na televisão, trabalhou na realização de vários programas e séries, também assumindo o texto de alguns espetáculos teatrais. Exímio cronista, ainda assinou por muitos anos uma notória coluna no jornal Folha de S. Paulo. No romance Luxúria, o escritor apresenta uma interessante fábula contemporânea que trata de forma primorosa a desesperança social e política do nosso país.

O livro discorre sobre um operário metalúrgico, pai de família e residente no conjunto de habitação popular Bairro Novo que, por impulso, motivado pelo desejo voraz de status, resolve construir uma piscina no quintal da humilde casa. Sua esposa preocupa-se no início, mas logo se empolga com aquela ideia. O ferramenteiro então consegue um financiamento da obra no governo, descrita nos documentos como uma “reforma hidráulica”. O cotidiano pacato do protagonista acaba se transformando num verdadeiro inferno quando ele se vê atolado em dívidas, sofrendo também com o destrato dos vizinhos, que sentem inveja de sua aparente prosperidade. A necessidade de se desfazer do cachorro de estimação em virtude do corte de gastos desarticula ainda mais a relação com o seu filho em plena puberdade, ao mesmo tempo em que os incontáveis problemas financeiros levam sua mulher à dependência de antidepressivos para combater a crescente ansiedade.

Esta situação à primeira vista pontual repercute um dilema de grande proporção vivido por muitos brasileiros (tanto que, simbolicamente, nenhum dos personagens, com exceção do cachorro, é nomeado). Bonassi refuta a atual noção de progresso ligada ao consumo e discute a ilusão de ascensão da nova classe média materializada no nosso país, mostrando que os ganhos sociais adquiridos nos últimos anos constituem na realidade uma série de bens de aplicação efêmera. O fato de os cidadãos mais pobres poderem conseguir comprar um carro, reformar a moradia, viajar de avião, comprar uma TV de plasma, etc. não é um verdadeiro sinal de desenvolvimento, já que as diferenças com os que compõem as camadas mais elevadas da sociedade não foram reduzidas consideravelmente.

O autor, de pessimismo mordaz, indica que o Brasil pode ter atravessado sim um período excepcional, que sugeria significativas mudanças sociais, mas que tudo não passava de um flerte: a classe C, mesmo tentando superar o seu lugar inferior, morrerá devendo ao crediário. O romance de crítica cortante também aborda as abusivas relações de trabalho, a violência urbana, a precariedade da educação pública e do sistema de saúde, além da religiosidade “de fachada”.

O sexo é constante na obra, sendo mais enfatizado através do louco tesão do metalúrgico pela companheira dona de casa. A luxúria, aliás, parece ser o único elemento que verdadeiramente pertence aos personagens, com a própria piscina se tornando um objeto de fetiche. Outro ponto bem explorado é o tempo que, em alguns momentos, parece suspender-se diante das figuras infelizes que compõem a trama.

Contudo, o mais interessante do livro é a tentativa de Fernando Bonassi em subverter a linguagem de seu texto sem fugir ao objetivo de contar a história que se propôs, ora fazendo uso de um discurso mais técnico, oferecendo informações detalhadas de ajustagem mecânica durante a instalação da piscina, ora curiosamente trazendo ao impresso a decupagem de um vídeo, descrevendo um de seus capítulos à maneira de um roteiro de cinema. Ele também abarca à narrativa documentos que incluem em si próprios uma narração específica, como a carta de demissão, e brinca com diálogos formados pela conexão entre fala e pensamentos, com estes últimos sinalizados em itálico, mostrando que quase ninguém no livro profere o que realmente quer dizer. Esta conjuntura faz com que a leitura seja bastante dinâmica e envolvente. Tendo a coragem de evidenciar que a legítima bonança vem para poucos, Luxúria é um livro indispensável.

Entrevista com Fernando Bonassi ao Blog da Editora Record contando detalhes acerca do processo de escrita do livro.

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Referências Utilizadas:

BONASSI, F. Luxúria. Rio de Janeiro: Record, 2015.
ISBN: 9788501104304

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Filmoteca: Que Horas Ela Volta? (2015). Filme dirigido por Anna Muylaert, com Regina Casé, Camila Márdila, Karine Teles e Lourenço Mutarelli.

Não poderia deixar de indicar este filme que muito dialoga com as questões tratadas na narrativa escrita por Fernando Bonassi. O excelente longa-metragem de Anna Muylaert também vincula a imagem de um país que fracassou em promover a inclusão social que prometia, mesmo abarcando certa perspectiva otimista e esperançosa não presente em Luxúria. As duas narrativas trazem a piscina como um elemento-chave, simbolizando de forma soberba a ainda inevitável tensão entre pobres e ricos, a linha tênue entre a separação e a aproximação das classes. Destaque para a fantástica atuação de Regina Casé como a cativante protagonista Val.

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4 Comentários

  1. Diria que foi um momento de falsa prosperidade.

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    • Justamente! A citação que inicia a postagem ilustra muito bem a construção do imaginário de progresso que se propagou no país nos últimos anos, substância básica do livro. Grande abraço!

      Responder
  2. Gostei da proposta do livro e a sua resenha surtiu o efeito desejado, bem clara e objetiva. A construção do texto também é bem bacana.Achei legal a indicação de um filme para “acompanhar”. Um abraço.

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