#46 A Imaginária

Título: A Imaginária

Autor: Adalgisa Nery

Primeira publicação: 1959

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora José Olympio

“Não creio que haja nenhum período feliz na nossa vida. Às vezes há uma fase de inconsciência da infelicidade.”

A carioca Adalgisa Nery teve sua significativa produção literária subjugada e até mesmo esquecida pelos grandes veículos editoriais e centros acadêmicos por vários anos, embora tenha sido bem recebida pela crítica especializada de sua época. Algo realmente lamentável, levando-se em conta que tanto a poesia quanto a prosa da escritora apresentam um excelente trabalho com a palavra, explorando com maestria a subjetividade e os embates existenciais. Tendo acompanhado de perto os movimentos culturais em meados do século XX, ela tornou-se musa de importantes artistas plásticos e homens de letras. Além de assinar uma série de crônicas no jornal Última Hora, trabalhou como tradutora e exerceu a carreira política, chegando a assumir três mandatos como deputada. O seu romance de estreia, A Imaginária, carrega vários traços autobiográficos, discutindo de forma pungente a opressão do feminino no ambiente doméstico e ante a esfera pública.

Narrado em primeira pessoa, o livro centra-se na dolorosa trajetória de Berenice a partir da infância, explorando a convivência com a família humilde, a precoce morte de sua mãe e o novo casamento do pai, além da passagem por um colégio interno gerido por freiras e o amor adolescente por um vizinho mais velho com quem veio a casar-se sem consentimento dos parentes. Ademais, a narrativa destaca principalmente a conturbada relação da protagonista com o marido e a família deste, em especial a sogra, ressaltando no texto elementos autoficcionais.

Assim como a personagem que criou, Adalgisa também casou jovem com o pintor Ismael Nery, um importante nome do nosso Modernismo, logo após a união de seu pai com outra mulher. A paixão juvenil acarretou um relacionamento turbulento e abusivo, marcado pelo sofrimento e terror cotidianos. A própria escritora confirmou como real a maioria dos episódios contados no romance; todavia, a composição do impresso também ratifica a utilização da inventividade na indicação e reforço de alguns detalhes.

É corrente o fato de que a autora só floresceu para a escrita e encontrou seu espaço na intelectualidade nacional com a morte deste primeiro cônjuge em 1934, vítima de uma tuberculose avançada. Antes disso, mantinha o talento recluso. Nesta perspectiva, o livro aparentemente foi lançado como uma espécie de grito de liberdade, expondo as reflexões e sentimentos da literata durante o tempo em que se viu reprimida pelas atitudes do marido, amargando também a impiedade e a hipocrisia social. Percebe-se que, por meio desta publicação, ela tentou manifestar a indignação que persistia em seu íntimo em razão dos acontecimentos do passado.

O título se associa ao caráter introspectivo do discurso da narradora, com o que era imaginativo podendo finalmente ser concretizado no papel, dando vazão a uma voz que há muito permaneceu trancada. Trata-se de um livro inspirado pela tristeza e pelo pessimismo, caracterizando uma leitura mais densa a ser saboreada com atenção. No entanto, a conjuntura de relato (ou desabafo) desenvolve os capítulos com leveza e aproxima o leitor da figura principal, possibilitando a imersão em sua personalidade complexa e aproximação de seus anseios, opiniões, angústias e temores velados.

Através das inúmeras passagens que retratam o constrangimento moral de Berenice, Nery questionou a injusta dominação masculina imposta às mulheres desde pequenas, vingando corajosamente a própria submissão sofrida anteriormente. Dotada de grande beleza estética, a obra é certamente uma das mais interessantes da literatura brasileira.

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Referências Utilizadas:

NERY, A. A imaginária. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.
ISBN: 9788503012621

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2 Comentários

  1. Tenho uma sugestão: em cada resenha coloque um pequeno trecho do livro, o que achar mais significativo. Nos daria, a nós leitores, uma visão mais íntima do resenhado. No mais, abraços.

    Responder
    • Olá! Sempre procuro colocar alguma citação do livro no início da postagem, elegendo a passagem que para mim melhor traduziu o espírito do resenhado. Tento respeitar os limites da reprodução de trechos completos em razão dos direitos legais reservados a editoras e autores. No entanto, confesso também ter enorme cuidado em não revelar muito da obra para não prejudicar a magia da leitura, me esforçando ao máximo para instigar quem me acompanha por aqui com comentários mais objetivos. Mas muito obrigado mesmo por este retorno.

      Para saciar a curiosidade, deixo o link para um texto no Blog da Editora Record com alguns excertos do romance: http://www.blogdaeditorarecord.com.br/2015/09/05/a-imaginaria-de-adalgisa-nery/

      Um grande abraço!

      Responder

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