#44 O Voo da Guará Vermelha

Título: O Voo da Guará Vermelha

Autor: Maria Valéria Rezende

Primeira publicação: 2005

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Objetiva/Alfaguara

“Aqui, ali, acolá, Rosálio corre nas linhas buscando a guará vermelha nos espinheiros das letras até vê-la com clareza e distinguir, luminosos, espinhos, penas e sangue.”

A paulista Maria Valéria Rezende dedicou-se durante muitos anos à educação popular, trabalhando em organizações em todo o nordeste brasileiro e no exterior, contribuindo para programas de formação de educadores. Residente há mais de três décadas na minha querida Paraíba, ela também é conhecida pela ficção e poesia destinada às mais diversas faixas etárias, ainda atuando no campo da tradução. Em O Voo da Guará Vermelha, a escritora trata com engenhosidade e bastante delicadeza da realidade de indivíduos que sobrevivem na obscuridade social, focando na beleza de seu cotidiano simples e na intensidade de seus sonhos.

O romance narra a tocante relação entre Rosálio, um servente de pedreiro analfabeto, e Irene, uma prostituta envelhecida e soropositiva. O casal se encontra ao acaso e decide manter o contato através de certa permuta de experiências, com ele contando histórias de sua vida enquanto ela, mesmo que precariamente, o ensina a ler e a escrever.

O protagonista masculino se mostra com grande fome de palavras, levando sempre em suas andanças uma caixa com alguns livros que havia herdado de Bugre, um índio amigo que o amparou no passado depois de por ele ser salvo. Sendo antes conhecido como Nem Ninguém e Curumim, se autonomeou Rosálio da Conceição em homenagem à Rosália, única professora que um dia lhe ofereceu alguma assistência. Ele vê em Irene o fim da busca por alguém que o ajudasse a decifrar o conteúdo daqueles queridos volumes. Já a figura feminina principal se apresenta no sofrimento de não conseguir mais tantos clientes necessários para pagar a senhora que criava o seu filho. A amargura também compõe a sua existência por meio da forte manifestação da enfermidade que possui e do constante pensamento em Romualdo, seu grande amor do passado que havia desaparecido. Ela vê em Rosálio a chance de escapar da difícil luta diária ouvindo os envolventes episódios da vivência de alguém tão cheio de esperança.

Sendo assim, além do narrador tradicional em terceira pessoa, vemos os dois personagens principais fazerem vezes de narrador, do tipo autobiográfico ou de causos alheios, permeando o enredo com vários contos aos moldes da cultura oral popular. Rosálio vai desvelando suas memórias, esmiuçando detalhes de sua trajetória, que passam a compor um caderno escrito a mão por Irene, que também divide dolorosas experiências antigas e lê para ele algumas narrativas do Livro das Mil e Uma Noites.

A linguagem é um elemento bastante trabalhado pela autora, que contempla a obra com a poesia advinda da simplicidade coloquial. A organização textual também contribui para o encanto estético do romance, com a descrição encadeando com notável cuidado os acontecimentos do passado e do presente e os capítulos recebendo títulos de cores que sugerem simbolicamente o desenrolar da trama.

No fim, os personagens criados pela mente inventiva de Rezende se fazem inesquecíveis, assim como as histórias que alçam voo dentro do amplo quadro narrativo da obra. Trata-se de um livro que se faz marcante nos sorrisos e no marejar dos olhos, celebrando a vida em toda a sua conjuntura.

____________________________________________________________

Referências Utilizadas:

REZENDE, M. V. O voo da guará vermelha. São Paulo: Alfaguara, 2005.
ISBN: 9788579622885

____________________________________________________________

Filmoteca: O Contador de Histórias (2009). Filme dirigido por Luiz Villaça, com Paulinho Mendes, Maria de Medeiros, Malu Galli e Cleiton Santos.

Deixo a indicação deste ótimo filme cuja narrativa também se desenvolve através da fala de um contador de histórias. Trata-se da cinebiografia de Roberto Carlos Ramos, pedagogo mineiro que foi criado na Febem (atual Fundação CASA) e que hoje atua como escritor e palestrante, tendo sido condecorado pelo trabalho de valorização da expressão oral inclusive internacionalmente. A produção é contada em flashback, com o protagonista rememorando a infância difícil até conhecer a pesquisadora francesa Margherit Duvas, que mudou sua vida. Destaque para as fantásticas atuações de Paulinho Mendes, que vive Roberto aos treze anos, e da portuguesa Maria de Medeiros, no papel de Margherit.

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: