#43 Éramos Seis

downloadTítulo: Éramos Seis

Autor: Maria José Dupré

Primeira publicação: 1943

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Ática

“O que foi minha vida em todos esses anos? Sacrifício e devotamento.”

A paulista Maria José Dupré destaca-se na literatura brasileira com obras de enorme sucesso editorial. Apesar de ainda ser mais conhecida pelos diversos títulos voltados ao público infantil e juvenil, a autora paulista possui uma significante produção de romances, tecendo um interessante retrato da sociedade em meados do século XX. Seu reconhecimento dentro da produção intelectual da época veio com Éramos Seis, que acabou vendendo mais de um milhão de exemplares e sendo traduzido para o espanhol, o francês e o sueco, também recebendo inúmeras adaptações para o cinema e televisão. O livro é centrado na figura de Dona Lola, que narra a história conturbada de sua família num exercício rememorativo que atravessa cerca de vinte anos.

Acompanhamos, a partir das lembranças da protagonista, o crescimento dos filhos Carlos, Alfredo, Julinho e Isabel, assim como sua difícil relação com o marido Júlio. Os Lemos moravam na Avenida Angélica, nas proximidades do parque Buenos Aires, em São Paulo, numa casa que o patriarca tentava pagar com o suor de muito trabalho. O local é exposto pela narradora com um triste saudosismo logo nas primeiras páginas, visão esta relacionada à sua velhice e à chegada dos rebentos à fase adulta. Dona Lola vai mostrando aos poucos como aqueles a quem tanto se dedicou se afastaram de seu convívio.

A narrativa traz como pano de fundo as transformações advindas de grandes acontecimentos históricos ocorridos entre as décadas de 1920 e 1940, como a Revolução de 1930 e as Revoltas Paulistas de 1924 e 1932, Também reconstituindo reflexos de eventos exteriores ao país, como a Segunda Guerra Mundial. O escrito também mostra o cenário de São Paulo sofrendo modificações e se modernizando.

Ademais, o que mais chama atenção no romance é certamente a construção de seus muitos personagens, a começar pelos seis do título, com personalidades entre o cunho tradicional e o vanguardista. Seu Júlio trabalhava em uma loja de tecidos e, por vezes, chegava do ofício embriagado. Era bastante autoritário na educação dos filhos. Dona Lola caracteriza a típica senhora submissa que não participa das decisões familiares, se doando aos afazeres domésticos e depositando toda a sua felicidade no bem estar de seus “pedaços”. Carlos, o Calucho, era responsável, estudioso e ajuizado, tornando-se o mais afeiçoado da mãe. Julinho era trabalhador e sonhava com a ascensão econômica, pendendo seu destino para a formação de um núcleo familiar próprio. Já Isabel, mesmo mimada por ser a única menina entre os irmãos, tinha um comportamento audacioso, se envolvendo em situações desafiadoras ao gosto de antigamente. Alfredo também seguiu por uma via oposta às virtudes esperados pelo corpo social do período, reprovando nos estudos, sendo demitido dos empregos por furto e assumindo seus ideais socialistas. Enquanto os três primeiros demonstram se identificar com os valores morais então vigentes, os dois últimos aparentam preceder sua época através de atitudes revolucionárias.

Também aparecem no livro outras figuras muito interessantes, como a da diligente empregada Durvalina e da iconoclasta vizinha Dona Genu, além da presença dos familiares de Lola: a mãe Dona Maria, a prima Justina, as irmãs Clotilde e Olga, as tias Candoca e Emília.

O texto de Dupré vai fisgando os leitores nos detalhes da descrição bem articulada. A linguagem empregada, além de objetiva, é bem próxima do falar coloquial. No romance não há grande viradas ou eventos sensacionais. A simplicidade com que é revivida cada fase da vida de Dona Lola atrai e comove quem está lendo através da identificação com os embates do cotidiano, com os pequenos momentos de felicidade junto aos parentes.

Em tempos em que o monstro do conservadorismo parece retomar o comando de todas as instâncias, Éramos Seis acaba proporcionando novas percepções acerca das famílias brasileiras por meio da leitura de velhos costumes. A família Lemos, à primeira vista tão de acordo com o tradicional, vai se tornando mais interessante justamente pela desconstrução de padrões que alguns de seus membros realizam.

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Referências Utilizadas:

DUPRÉ, M. J. Éramos Seis. São Paulo: Ática, 2011.
ISBN: 9788508158270

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Musicoteca: Sou Eu (1993). Disco de Simone.

Indico para acompanhar o desenrolar das memórias de Dona Lola o décimo oitavo disco de Simone. O ótimo Sou Eu traz novas gravações e interpretações preciosas de antigos sucessos da Cigarra, canções que combinam um pouco de cada um dos seis Lemos.

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3 Comentários

  1. Boas recordações deste livro

    Responder
  1. Listeratura: Mães na Ficção | 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer

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