Extrato Poético: Thiago de Mello

O Chão do Mundo

Rumo nenhum persigo. É quando sigo
as vias do mais trôpego sonhar
ou de fundos e rijos pensamentos,
chego sempre a mim mesmo; o clamor áspero
que me atraiçoa o límpido silêncio,
após ressoar em vão pelas paredes
da gasta e surda concha do infinito,
retorna, feito mágoa, à minha boca.
Não sei dar-me o que busco, se o não tenho.

A erva do tempo cresce, suavemente,
não tarda e o chão do mundo me devora.
Por isso quando em mim se faz mais noite,
minha face despida de seus medos
em sua própria treva se contempla,
onde lhe esplende a rude finitude.

Em meu ser, resignado, permaneço,
pois se tento fugir-me, eis que me vem
à boca o travo frio do negrume
que existe além de mim, e que me espera.

Thiago de Mello in ‘Vento Geral [Poesia 1951-1981]’ (Editora Civilização Brasileira)

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