#42 O Centauro no Jardim

80183_ggTítulo: O Centauro no Jardim

Autor: Moacyr Scliar

Primeira publicação: 1980

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Companhia das Letras (Selo Companhia de Bolso)

“Da cintura para baixo, sou um cavalo. Sou — meu pai nem sabe da existência desta entidade — um centauro. Centauro.”

O gaúcho Moacyr Scliar conseguiu unir em sua vida dois caminhos bem diferentes: o da medicina e o da literatura. O primeiro veio com a formação acadêmica e o segundo com a afinidade junto à palavra escrita. Filho de imigrantes judeus oriundos do leste europeu, ele se tornou especialista em saúde pública, atuando na área por vários anos. Ademais, as letras sempre se mantiveram presentes na sua trajetória, resultando à princípio na publicação de contos baseados em sua experiência como estudante. Logo estava dedicado à produção de romances, crônicas, ensaios, ficções infantis e juvenis. Suas obras, totalmente influenciadas por seu modo peculiar de ver a realidade social brasileira, obtiveram grande repercussão crítica nacional e internacionalmente, apontando-o como um os autores mais representativos da nossa literatura contemporânea.

Com O Centauro no Jardim, Scliar relacionou a temática das raízes e tradições do povo judeu ao imaginário sul-rio-grandense, apresentando certa dose do realismo mágico característico de textos de cunho fantástico. O romance traz as memórias de Guedali, quarto filho da família judia de imigrantes russos Tratskovsky. O protagonista é um centauro, ser metade homem, metade cavalo, que compõe o bestiário mitológico greco-romano. O livro começa em 1973, em São Paulo, mais precisamente no jantar de seu aniversário de 38 anos no restaurante tunisiano “Jardim das Delícias”. É por esta ocasião que ele recorda a sua história de vida, desde a vinda de seus pais para o sul do Brasil.

Leão e Rosa chegam fugidos dos cossacos, que passaram a invadir e saquear aldeias judaicas após a derrota da Rússia na guerra contra o Japão. A mãe veio contra sua vontade. Preferia viver perseguida a ir para a América do Sul, onde ela acreditava haver mais criaturas selvagens do que pessoas. Além de Bernardo, Débora e Mina, Leão sonhava com mais um filho, o que acabou tornando-se realidade. Com o nascimento do centauro, a família, mesmo atordoada, decide cumprir os preceitos do judaísmo, a começar pela cerimônia de Brit Milá. A circuncisão do pênis do menino é feita, entretanto, às escondidas, sem testemunhas, constituindo uma das passagens mais interessantes da narrativa.

O horror causado pela forma física daquela criança emudeceu Rosa, que permaneceu em estado de choque sem querer comer ou levantar da cama por um longo tempo. Contudo, ela vai adquirindo coragem de pegar o filho nos braços e se recupera, passando a aceitá-lo como os outros. A família decide se isolar em algum lugarejo do interior para criar Guedali, encontrando segurança em uma fazenda no distrito de Quatro Irmãos, bem distante da região do Bom Fim, bairro tipicamente judeu da capital Porto Alegre. O personagem principal cresce escondido, excluído do convívio social, o que o leva a desenvolver o hábito da leitura. Com o tempo, depois de alguns incidentes ruins, ele decide fugir de casa, dando início a uma jornada repleta de percalços que alcança o Marrocos.

O narrador criado por Moacyr Scliar remete à dúplice étnica e religiosa dos filhos de refugiados judeus no país. A rememoração de Guedali reflete sua dificuldade emocional para lidar com essa múltipla identidade, mostrando que a solução se ligaria ao conhecimento de si próprio e à sua aceitação como diferente. Ainda através da figura deste centauro, o cultivo da inteligência é colocado em contraponto à irracionalidade animal, uma chave para os instintos e a agressividade do personagem.

A leitura é dinâmica e envolvente, fluindo através de uma linguagem simples e objetiva. Não há distancia entre os eventos narrados e quem está lendo, que se sente parte da construção escrita e muito próximo dos sentimentos de Guedali. Trata-se de uma ótima história de formação, ao mesmo tempo sensível e provocadora, discutindo magistralmente o sentido de liberdade e a instabilidade de acolhimento ante a intolerância da sociedade.

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Referências Utilizadas:

SCLIAR, M. O centauro no jardim. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
ISBN: 9788535918700

www.scliar.org/moacyr

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3 Comentários

  1. Bruno Bucis

     /  3 de fevereiro de 2016

    Moacyr é incrível, tanto nos romances como nos contos. Melhor que O Centauro No Jardim, pra mim, só ‘Max e os Felinos’, já leu?
    Abraços
    https://atoboga.wordpress.com/

    Responder
    • Oi, Bruno! Ainda não li ‘Max e os Felinos’, mas pretendo até o fim do ano. A escrita do Moacyr é realmente sensacional! Também gosto demais dos contos dele. Muito obrigado pela visita :)
      Grande abraço!

      Responder
  1. os dez melhores livros que li em 2015 | satãnatório

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