#38 A Casa dos Budas Ditosos

Título: A Casa dos Budas Ditosos

Autor: João Ubaldo Ribeiro

Primeira publicação: 1999

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Objetiva

“A vida é foder, em última análise.”

João Ubaldo Ribeiro é incontestavelmente um dos maiores escritores da nossa literatura. O baiano, formado em Direito, também exerceu a profissão de professor e jornalista, destacando-se por suas crônicas. Detentor de um estilo requintado de escrita, marcado pela ironia e análise social, usufruiu de grande prestígio também internacionalmente, sendo reconhecido como autor de grande relevância cultural.

Convidado a participar da Coleção Plenos Pecados (série de livros apresentando uma visão libertadora dos sete pecados capitais) com um texto sobre a luxúria, o autor questionou os limites em relação ao desejo e ao sexo através de um relato pouco comum. Ubaldo Riberio informa logo nas primeiras páginas de A Casa dos Budas Ditosos que a curiosa narrativa que ele trazia ao lume vinha de uma transcrição datilografada de várias fitas gravadas por uma misteriosa mulher. Ele conta que o material foi entregue por um desconhecido no edifício em que trabalhava após alguns jornais noticiarem sobre a futura publicação. A figura feminina se identificava apenas pelas iniciais CLB (que poderiam ser falsas, como ela própria informava), e expunha nestes escritos várias peripécias de sua vida. Na nota explicativa, o escritor informa aos leitores sobre a tentativa de preservar a oralidade presente nos originais, mantendo-se na edição impressa peculiaridades típicas da fala.

A entidade narradora do livro é uma baiana de 68 anos residente no Rio de Janeiro. A mulher dita sua trajetória dedicada ao sexo desde as primeiras experiências na infância sem nenhum respingo de culpa ou arrependimento. Trata-se de uma provocante história totalmente ligada ao prazer e à satisfação de desejos íntimos.

Com uma vida entregue ao hedonismo, a personagem enfatiza a importância da descoberta do próprio corpo e da própria excitação, mergulhando em todas as possibilidades da luxúria, experimentando a homossexualidade, o incesto, a orgia, a troca de casais, o voyeurismo, o sadismo, a zoofilia e até o transar pela internet. Ponderando sobre o seu apetite sexual, ela aponta que as pessoas são facilmente corrompidas perante qualquer possiblidade de satisfação de alguma tara secreta.

O depoimento abrange as várias esferas do comportamento sexual humano, também refletindo sobre questões relacionadas ao feminismo, à bissexualidade e ao adultério. A liberdade do prazer é constantemente posta em contraponto à diferenciação de gênero ante a sociedade e suas convenções hipócritas.

O tom de conversa informal e sem censura consegue mesmo envolver quem está lendo, prendendo sua atenção e contribuindo para um ritmo de leitura bastante fluido. Trata-se de um livro provocante, que mostra a luxúria em sua versão mais essencial, sem dar importância a qualquer pudor ou tabu.

Mesmo fisgado pela dúvida de que o testemunho possa não ser realmente verídico, o leitor dificilmente conseguirá permanecer indiferente ao discurso sincero e carregado de humor irônico presente neste romance.

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Referências Utilizadas:

RIBEIRO, J. U. A casa dos budas ditosos. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999.
ISBN: 8573022396

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Musicoteca: Nave Manha (2012). Disco de Trupe Chá de Boldo.

Indico o ótimo som da Trupe Chá de Boldo para acompanhar a leitura do livro. O segundo disco do grupo paulista brinca com diferentes influências musicais e instrumentação versátil em composições focadas no cotidiano. As faixas misturam humor e poesia, falam do amor, do desejo, do sexo e da diversão. A produção do álbum recebeu a ilustre colaboração de André Abujamra e Tatá Aeroplano.

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2 Comentários

  1. Li esse livro muito nova e foi um mundo novo. Aliás, li em pdf. e na agenda eu escrevia as frases impactantes (e que são várias, por sinal).

    Deu saudade, acho que relerei em breve.

    Resposta
    • Oi, Mariana! Este livro é realmente cheio de passagens interessantes!
      Que bom que a postagem te fez sentir saudade da escrita do João Ubaldo. Espero que esta releitura seja repleta de novas descobertas e sensações!

      Um abração! :)

      Resposta

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