#36 Eu e Outras Poesias

abgTítulo: Eu e Outras Poesias

Autor: Augusto dos Anjos

Primeira publicação: 1920

Modalidade: Poesia

Minha Edição: Editora Civilização Brasileira

“Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.”

Augusto dos Anjos foi um dos mais originais poetas da nossa terra, constituindo também um dos nossos mais populares artistas. O único livro deste meu conterrâneo, Eu (1912), acabou reeditado após sua morte em 1914, acrescido de poemas esparsos até então só publicados em periódicos, sob a curadoria do amigo Órris Soares. A coletânea Eu e Outras Poesias seguiu apresentando versos rebeldes a um público ainda acostumado com a tradição parnasiana.

O paraibano soube lapidar a poesia feita no Brasil do final do século XIX e início do século XX a seu gosto. Ele foi capaz de manter um padrão estético clássico tratando de temas mal vistos por meio de palavras e expressões incomuns. Com o soneto como forma poética preferida, o escritor fez arte bebendo do cientificismo, elaborando decassílabos de exagero sistemático através de um léxico tido por muitos como apoético, constituído por vocábulos relacionados a diversas áreas do conhecimento, como a química, a psicologia e botânica. Construiu poemas com fixação na fatalidade da morte, também abordando a soberania da natureza e os limites do homem, retratando como ninguém as transformações da vida moderna.
__________________________________________________________________

Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

(ANJOS, 1993, p. 143)
__________________________________________________________________

As composições de objetividade pessimista, às vezes pautadas na repulsa e no desagradável, são dotadas de uma beleza única, formando descrições visuais extraordinárias que de certa forma violentam a realidade. Sua métrica rígida também produz singular harmonia musical que sobrevive preciosa em declamação. Ademais, o poder do poeta ultrapassa as amarras da metrificação.

Trata-se de uma poesia de negação, essencialmente melancólica e soturna. Apoiados em paradoxos e dotados de forte dramaticidade, os versos augustianos se gravam para sempre na cabeça dos leitores. É incrível como em tão poucas palavras percebemos martelar tanta sensibilidade e visão mórbida da existência. São versos ao mesmo tempo perturbadores e admiráveis.

Augusto dos Anjos venceu o tempo e é hoje o principal patrono da Academia Paraibana de Letras (APL), sendo reconhecido como um dos maiores nomes da literatura brasileira. Seu legado, mesmo pequeno em decorrência da vida curta (ele faleceu com apenas 30 anos), compõe um verdadeiro testemunho de sua incontestável genialidade.

Download gratuito do livro na biblioteca digital Domínio Público

*Os versos que compõem a citação de cabeçalho são do poema ‘Psicologia de Um Vencido’.

____________________________________________________________

Referências Utilizadas:

ANJOS, A. Eu e outras poesias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993.
ISBN: 9788520001264

BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. pp. 287-292.

____________________________________________________________

Filmoteca: Transubstancial (2003). Curta-metragem dirigido por Torquato Joel, com Walmar Pessoa, Fernando Teixeira, Zezita Matos e voz de Luís Carlos Vasconcelos.

Esta premiada produção apresenta uma visão existencialista da obra de Augusto dos Anjos a partir de fragmentos de seus poemas. São encenados ou declamados alguns dos versos mais célebres do poeta, também apresentados em um sensacional conjunto de imagens que refletem bem a atmosfera de Eu e Outras Poesias. Aliás, recomendo a leitura do livro em pequenas doses diárias.

Anúncios
Deixe um comentário

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: