Listeratura: Amizades na Ficção

Amigo a gente guarda dentro do coração e debaixo de sete chaves, já dizia a Canção da América do grande Milton Nascimento. Seja duradoura ou passageira, muito forte ou inusitada, toda e qualquer amizade nos é sempre importante em alguma etapa da vida, inclusive aquelas que acompanhamos na ficção literária. Para estrear esta nova seção de listas paralelas no blog, convido-os a relembrar algumas das amizades que mais marcaram a nossa literatura brasileira.

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10 – Miguel, Crânio, Magrí, Calú e Chumbinho
Livro: A Droga da Obediência – Pedro Bandeira

O grupo secreto dOs Karas, formado por uma turma de estudantes de São Paulo, desvendou grandes mistérios, ao mesmo tempo em que tratava de assuntos sérios como a ditadura, as DST’s e o pensamento ecológico em livros que consagraram Pedro Bandeira como um dos principais expoentes da literatura juvenil brasileira. A amizade dos cinco adolescentes se fortaleceu a cada novo livro da série, desde o lançamento da primeira aventura em 1984.

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97885010053049 – Pedro Bala, Volta-Seca, Professor, Pirulito, Gato, Dora e Sem-Pernas
Livro: Capitães da Areia, de Jorge Amado

Os protagonistas de um dos mais celebrados romances escritos por Jorge Amado representam muito bem o valor de uma verdadeira amizade. Os meninos, moradores de um trapiche abandonado, sobrevivem juntos à realidade tão sofrida das ruas de Salvador, formando uma família com todo o seu instinto de proteção e auxílio. Cada criança vai cativando o leitor através de uma característica própria, de seus sonhos, fazendo-o refletir sobre o descaso social em relação aos menores abandonados.

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as_meninas_19548 – Lorena, Lia e Ana Clara
Livro: As Meninas, de Lygia Fagundes Telles

Embora com origens e personalidades muito diferentes, as três protagonistas do romance de Lygia Fagundes Telles demonstram um apoio mútuo inesgotável do início ao fim da narrativa. Morando em um pensionato de freiras, elas compartilham seus dilemas presentes e experiências passadas, além de suas aspirações. Juntas, as personagens proporcionam ao leitor uma maior compreensão dos conflitos que envolviam a juventude da década de 1970 no Brasil, refletindo uma trajetória comum a muitas garotas da época. A forte relação de cumplicidade entre as meninas é realmente inesquecível.

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sacicq67 – Pedrinho e o Saci
Livro: O Saci, de Monteiro Lobato

Pedrinho capturou o saci no Capoeirão dos Tucanos, a mata virgem do Sítio do Picapau Amarelo, prendendo-o em uma garrafa como indicado nas instruções do Tio Barnabé. Solto novamente, o negrinho de uma perna só ajuda o menino a enfrentar a Cuca e a Iara, tornando-se seu grande amigo. Ele lhe conta os segredos da floresta e várias lendas do folclore brasileiro, como a do Boitatá, a da Mula-sem-cabeça, a do Lobisomem e a do Negrinho do Pastoreio. Os dois compartilham o espirito aventureiro típico da infância.

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opp6 – Zé-do-Burro e seu burro Nicolau
Livro: O Pagador de Promessas, de Dias Gomes

Este talvez seja o maior exemplar em nossa literatura da devoção a uma amizade. Zé-do-Burro pede a Santa Bárbara (Iansã) que salve o burro Nicolau, seu melhor amigo, que fora ferido por um galho de árvore. O animal se recupera e o homem tenta cumprir a dívida com o divino, compartilhando seu sítio com lavradores pobres e iniciando uma caminhada de sete léguas do interior baiano até a capital Salvador, carregando uma pesada cruz de madeira a fim de depositá-la no interior de uma igreja. A jornada do protagonista da peça de Dias Gomes emociona desde a sua motivação.

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5 – Quincas Berro D’água, Curió, Negro Pastinha, Cabo Martim e Pé-de-Vento
Livro: A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água, de Jorge Amado

Os companheiros de bebedeira de Joaquim Soares da Cunha, o Quincas Berro d’Água, dirigiram-se já bêbados ao local do seu velório, encontrando o defunto com um sorriso no rosto, rodeado pelos familiares que antes o rejeitaram. Deixados de guarda do morto, resolvem levá-lo a um divertido passeio pelos lugares que frequentava em vida. O retiram do caixão e trocam suas roupas, resgatando suas vestes de boêmio. Sabendo ainda do desejo do amigo em ter no mar seu último momento, o grupo decide ao fim da noite cumprir sua vontade. O velho Quincas havia abandonado o ofício de funcionário público e a vida pacata de pai de família para ser feliz nas ruas de Salvador, realmente conseguindo junto aos seus amigos.

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imagem4 – Riobaldo e Diadorim
Livro: Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa

Riobaldo conheceu o jagunço Reinaldo ainda jovem, em uma travessia do rio São Francisco. O segundo acaba sendo o principal responsável pela entrada do primeiro no bando de Joca Ramiro. O narrador deste grandioso romance de Guimarães Rosa logo reconhece que existe entre os dois uma relação diferente da que tinha com outros companheiros. A amizade acaba por se tornar sólida, e Reinaldo confidencia ao amigo o seu nome verdadeiro, pedindo-lhe segredo: Diadorim. Figura destemida e calada, Diadorim impressionava Riobaldo ao mesmo tempo em que exercia sobre ele grande fascínio, tornando-se seu maior companheiro de lutas. A parceria de grande afeto vai se fortalecendo ainda mais com o passar do tempo, causando um grande conflito de sentimentos no protagonista.

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meu-pe-de-laranja-limaajeita23 – Zezé e Minguinho, o pé de laranja lima
Livro: Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos

Zezé passa a conviver e desabafar seus problemas do dia a dia com o pequeno pé de laranja lima que encontra no quintal de sua nova casa. Com o tempo, o menino percebe que a planta é capaz de conversar com ele, tornando-se seu grande conselheiro, confidente e amigo, recebendo o nome de Minguinho. O pezinho é o principal representante do mundo fantástico criado pela imaginação do pequeno com a finalidade de fugir dos perrengues cotidianos, contribuindo para sua descoberta do mundo e da vida, em todos os seus aspectos. Esta relação inusitada encantou e continua encantando a vida de muitos leitores.

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18418689052 – João Grilo e Chicó
Livro: Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna

Os amigos da peça de Ariano são um pouco diferentes um do outro: João Grilo é astucioso e malandro, Chicó é covarde e fantasioso. A dupla se aventura em busca de alguns trocados, lutando sempre juntos pela sobrevivência. A relação dos dois sinaliza o notável engenho do escritor paraibano. Enquanto um é personagem tradicional da literatura de cordel, presente em folhetos datados no início do século XX, o outro constitui uma ótima homenagem à figura dos contadores de histórias nordestinos, com seus “causos” cheios de viradas absurdas pautadas no imaginário popular. É uma combinação perfeita!

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1 – Bentinho e Escobar
Livro: Dom Casmurro, de Machado de Assis

Bentinho e Escobar se conheceram no seminário de S. José. O afeto dos dois foi quase imediato, mantendo-se intenso mesmo com a saída de ambos daquele ambiente religioso, com as visitas tornando-se mais próximas e as conversas mais íntimas. O protagonista do famoso romance do Bruxo do Cosme Velho sempre deixou clara sua admiração pelo amigo, que, por sua vez, sempre se demonstrou um leal companheiro. O repentino e trágico fim de Escobar abala o universo de Bentinho, trazendo-o um turbilhão de emoções e lembranças que acabaram por originar sua dúvida em relação à fidelidade de Capitu. A parceria conquista e envolve os leitores, constituindo uma relação em demasia significante para o desenvolvimento da narrativa, também contribuindo para a excelente representação do comportamento humano feita pelo autor fluminense.

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> Menções honrosas:

Zezé e o velho português Manuel Valadares, o Portuga
(Meu Pé de Laranja Lima – José Mauro de Vasconcelos)

Eduardo, Hugo e Mauro
(O Encontro Marcado – Fernando Sabino)

Sérgio e Franco
(O Ateneu – Raul Pompeia)

Edmundo, Pituca, Bolachão e Berenice [Turma do Gordo]
(O Gênio do Crime – João Carlos Marinho)

Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro
(Fim – Fernanda Torres)

Virinha, Latinha, Flor-de-Lis, Cara-de-pau e Voz de Cristal
(Os Colegas – Lygia Bojunga)

Isabel e sua bisavó Beatriz
(Bisa Bia, Bisa Bel – Ana Maria Machado)

Pluft e Maribel
(Pluft, O Fantasmina – Maria Clara machado)
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Lembrou de mais alguma parceria não mostrada por aqui? Escreve lá embaixo nos comentários!

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4 Comentários

  1. Que saudade do Karas, li a série toda na adolescência, mas ainda não li a continuação lançada ano passado, Droga de Amizade. Ótimo post :)

    Responder
    • Essas primeiras leituras são sempre marcantes. Sou imensamente grato a todos os nossos escritores voltados ao público juvenil pela formação de tantos leitores apaixonados.
      Também não tive a oportunidade de ler o último lançamento do Pedro Bandeira, mas estou bem ansioso. Fico contente que tenha gostado do post. :)
      Muito obrigado pela visita!
      Grande abraço!

      Responder
  2. Amei seu blog, vou acompanhar com mto prazer!

    Responder

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