#33 Rio Negro, 50

Título: Rio Negro, 50

Autor: Nei Lopes

Primeira publicação: 2015

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

“Pois, no Rio, como em todo lugar, cada turma tem seu bar.”

Nei Lopes já é velho conhecido da música popular brasileira. Grande compositor do nosso samba, o carioca também se destaca enquanto estudioso da cultura africana e escritor, unindo talento artístico, erudição e articulação política numa produção bastante prolífica. Seu mais novo romance, Rio Negro, 50, apresenta aspectos pouco conhecidos sobre a intelectualidade negra brasileira na década de 1950, articulando ficção com personagens, locações e acontecimentos reais.

A narrativa inicia-se no dia seguinte à vergonhosa derrota do Brasil para o Uruguai em pleno Maracanã no final da Copa do Mundo: 17 de julho de 1950. Um jovem negro é cercado por torcedores indignados ao saltar do trem na Estação Central do Brasil e acaba linchado por se parecer com o jogador Bigode. O “Crime da Copa” demonstra ligação com o fato de que a seleção brasileira era formada em maioria por jogadores negros, sendo discutido por artistas e intelectuais no Café e Bar Rio Negro, reduto da negritude carioca e espaço central da obra.

A extensa galeria de personagens vai se apresentando aos poucos, entre gente do povo e as maiores personalidades negras da época, como o ativista Abdias Nascimento (também fundador do Teatro Experimental do Negro), o músico Pixinguinha e o maestro Moacir Santos. Todos debatem o preconceito racial profissionalização das escolas de samba, a repressão às religiões de matriz africana e o surgimento do Renascença Clube (primeira associação recreativa oferecida à classe média negra), entre outros temas ligados à afro-brasilidade, além da situação econômica, política e social do nosso país nos últimos anos do governo de Getúlio Vargas. Entre um chope e outro, os frequentadores construíam um ambiente de resistência no centro da então capital da República.

A efervescência da década de 1950 também repercutia no Abará (apelidado de “Colored” devido à cor da pele de sua freguesia), bar frequentado por sambistas, vedetes, jogadores de futebol e malandros, também localizado na aristocrática avenida Rio Branco. Ademais, quem mais se destaca no enredo é a figura destemida do Dr. Paula Assis, advogado negro que resolve acompanhar o processo resultante do absurdo delito que abre o livro, atuando como assistente da promotoria.

A narração é feita em terceira pessoa através de uma linguagem informal, construindo o texto quase como que aos moldes de uma conversa, tornando-o gostoso mesmo de ler. Um detalhe bastante interessante é que cada capítulo traz uma epígrafe constituída por algum verso decassílabo do poeta catarinense Cruz e Souza, “símbolo maior da intelectualidade afrodescendente no Brasil”, segundo palavras do próprio Nei.

A escolha pela década de 1950 não foi aleatória, já que o período se constituiu decisivo no reconhecimento da contribuição do negro à cultura do país. O autor sabe manusear com desenvoltura os elementos históricos em seu discurso ficcional, atravessando a obra com envolventes conversas de mesa e episódios inesperados que vão se cruzando furtivamente. O romance traz, através de seus personagens, maior intensidade representacional da miscigenação do povo brasileiro, desconstruindo e combatendo o preconceito racial a partir de um retrato preciso dos problemas enfrentados pelos homens e mulheres “de cor” no passado, dificuldades estas que deixaram cicatrizes ainda incômodas às novas gerações.

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Referências Utilizadas:

LOPES, N. Rio Negro, 50. Rio de Janeiro: Editora Record, 2015.
ISBN: 8501102849

www.neilopes.com.br

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Filmoteca: A Negação do Brasil (2000). Filme dirigido por Joel Zito Araújo, com depoimentos de Ruth de Souza, Milton Gonçalves, Léa Garcia e Zezé Motta.

Indico este premiado documentário que trata da importância dos atores negros na história da telenovela no Brasil. No filme, diversos artistas contam suas experiências, discutindo o preconceito (a maioria dos personagens negros representados na TV eram estereotipados e/ou negativos) e a resistente luta pelo reconhecimento, tendo seus discursos perpassados pelas próprias memórias do diretor, que realizou uma minuciosa investigação, analisando as influências da teledramaturgia na formação da identidade étnica do povo brasileiro. A produção é repleta de registros raros.

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Musicoteca: Dolores Duran Canta Para Você Dançar Nº 2 (1958). Disco de Dolores Duran.

Indico para acompanhar a leitura o terceiro álbum da grande dama do rádio e também personagem de Rio Negro, 50 Dolores Duran. A voz dramática da cantora combinada à melodia do samba-canção traduz bem a boemia carioca presente na narrativa escrita por Nei Lopes.

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