#32 Morangos Mofados

Título: Morangos Mofados

Autor: Caio Fernando Abreu

Primeira publicação: 1982

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Nova Fronteira

“E a cada dia ampliava-se na boca aquele gosto de morangos mofando, verde doentio guardado no fundo escuro de alguma gaveta.”

A escrita de Caio Fernando Abreu é marcada por um estilo moderado e bem particular, tratando de temas ligados à essência do ser humano, como o amor, o sexo, o medo, a dor e a solidão. O gaúcho soube muito bem representar a atmosfera dos últimos anos da Ditadura Militar no Brasil, expondo a cultura e os dilemas de sua geração.

A coletânea Morangos Mofados apresenta alguns dos contos mais importantes da extensa produção do autor, sendo sua publicação de maior sucesso entre público e crítica. Os textos dividem-se em dois segmentos intitulados “O mofo” e “Os morangos”, seguidos pela narrativa que dá nome à obra. Num primeiro momento, temos o predomínio de questões ligadas à incerteza, à desilusão e ao fracasso, ressaltando um tom mais sombrio e crítico. Ademais, posteriormente, os escritos encontram possíveis resquícios de esperança e liberdade.

O livro traz como principal característica a não linearidade através de narrações bastante fragmentadas e sem clara unidade de sentido. Este fator, aliado a uma linguagem bem trabalhada e ao mesmo tempo informal, é o grande responsável pelo sentimento de magnetismo nos leitores, através de um interessante estranhamento. O lirismo e a atmosfera sufocante também se mostram constantes em boa parte dos textos.

Os personagens criados por Caio apresentam grande carga psicológica, tendo seu interior evidenciado e analisado. São diversas figuras humanas, em maioria melancólicas, que tentam reagir aos problemas do próprio inconsciente ou da realidade que os cerca, que buscam se compreender.

Destaco os contos “Além do ponto”, a respeito da incursão de um personagem-narrador ao encontro da pessoa amada, seguindo o fluxo de seus pensamentos e sentimentos ambíguos, “Caixinha de música”, centrado na decadência e no eminente fim de um relacionamento, “Transformações”, em que outro narrador introspectivo, perseguido por um grande sentimento de falta, tenta entender sua depressão e “Morangos mofados”, que trata do processo de redenção de um personagem angustiado.

Os contos “Terça-feira gorda” e “Aqueles dois” abordam de forma contundente a repressão à homossexualidade, com personagens sendo marginalizados em detrimento do julgamento social, ressaltando o preconceito mesmo em abordagens tão diferentes. Enquanto um mostra a atração sexual explícita entre dois homens numa festa, o outro evidencia o carinho e o afeto entre dois colegas de trabalho, com a relação amorosa sendo apenas sugerida. A intolerância mostra-se implacável ao final das duas narrativas. O homoerotismo se faz presente de forma mais aberta e desprendida no conto “Sargento Garcia”, que se pauta na iniciação sexual de um adolescente com um oficial do exército.

As narrativas “Fotografias” e “Os sobreviventes” apontam para uma angústia relacionada à busca da verdadeira felicidade através do amor. Já “Diálogo”, o conto que abre o livro, lembra muito a construção das crônicas da série A+B, de Machado de Assis, estilo esse comum a muitos jornais do século XIX, com o texto desenvolvendo-se através de uma conversa entre dois personagens impessoais, designados apenas por letras. Logo verificamos as dificuldades de comunicação entre A e B, com um não sendo capaz de entender o que o outro fala, mesmo com o objetivo de ambos sendo aparentemente o mesmo. Os discursos vazios acabam sendo preenchidos por quem está lendo.

Facilmente elencado entre os favoritos de muita gente, Morangos Mofados é daqueles livros que se perpetuam na memória, provocando ricas reflexões e estimulando sucessivas releituras.

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Referências Utilizadas:

ABREU, C. F. Morangos mofados. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2015.
ISBN: 8520925332

www.caiofernandoabreu.com

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Filmoteca: Aqueles Dois (1985). Filme dirigido por Sérgio Amon, com Pedro Wayne e Beto Ruas.

A adaptação para o cinema trouxe uma leitura menos intensa do conto homônimo, de certa forma expandindo-o através de uma conclusão mais aberta e otimista. Contudo, o filme consegue ser fiel à delicadeza e ao sentimento da escrita de Caio F., conferindo às cenas muitas de suas sugestões e sutilezas, além do clima de intimismo e desencanto patente em Morangos Mofados. Destaco a ótima trilha sonora com boleros na voz de Dalva de Oliveira.

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Musicoteca: Ângela Rô Rô (1979). Disco de Ângela Rô Rô.

Como o próprio autor faz ao início do conto “Os Sobreviventes”, indico a voz marcante da Rô Rô para acompanhar a leitura da obra. As composições do primeiro álbum da cantora refletem bem a nuance das narrativas de Caio.

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