#29 Primeiras Estórias

Título: Primeiras Estórias

Autor: João Guimarães Rosa

Primeira Publicação: 1962

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Nova Fronteira

“Era uma velha, uma velhinha – de história, de estória – velhíssima, a inacreditável.”

Para João Guimarães Rosa, as palavras empreendidas numa obra constituíam uma área abrangente para a potencialização das significações. O autor mineiro ofereceu às suas narrativas novas perspectivas textuais através de diversos procedimentos que exploravam a linguagem e sua manifestação poética, evidenciando a musicalidade da fala sertaneja. A utilização de um vocabulário enraizado na cultura popular e cheio de neologismos é, com certeza, o que mais chama a atenção em seus trabalhos.

Os contos reunidos em Primeiras Estórias constituem a melhor porta de entrada para o universo criado pelo escritor. O título da coletânea reflete a opção de Rosa em resgatar elementos imaginários típicos dos “causos” contados por nossos ancestrais. São vinte e um textos em maioria anedóticos, transcorrendo geralmente em ambientes rurais não especificados, como sítios, fazendas ou pequenos arraiais, quase sempre marcados pelo realismo mágico já bem característico de sua literatura.

As estórias captam acontecimentos aparentemente banais, configurando certa relação com a morte. Uma possível homogeneidade entre os escritos estaria ligada principalmente aos seus personagens: crianças, anciões e loucos que mantém relações com o alógico e o sobrenatural. Vários destes registram suas impressões enquanto narradores, assumindo papéis secundários ou de protagonistas, às vezes contribuindo, inclusive, com a figura de um narrador em terceira pessoa.

Destaco as narrativas “A terceira margem do rio”, em que se fala da relação entre um homem que se refugia numa canoa, no meio de um rio, e seu filho primogênito, única pessoa que não desiste de esperar o seu retorno, “A menina de lá”, centrado na menina Nhinhinha, cujos pensamentos e desejos sempre se tornavam realidade, “Um moço muito branco”, em que um fazendeiro, após ser surpreendido junto a outros habitantes de um pequeno lugarejo com a possível visita de um disco voador, é surpreendido com a chegada de um alvo e maltrapilho rapaz em sua propriedade, “Nenhum, nenhuma”, a respeito de uma criança que vai passar as férias na fazenda em que vive um jovem casal de noivos, além de uma senhora muito velha e um homem de aspecto triste e “O espelho”, que traça as reflexões de um homem que decide reformular sua imagem externa, conhecendo melhor a sua essência. Os contos “Fatalidade” e “Nada e a nossa condição” possuem os desfechos mais arrasadores da obra.

Há uma interessante ligação entre o conto que abre a antologia e o seu último, “As margens da alegria” e “Os cimos”, respectivamente, através da descoberta das muitas faces da vida por um menino não nomeado. Ambos carregam muito lirismo em sua construção e são os únicos divididos em pequenas seções.

A beleza advinda das situações cotidianas, das pessoas simples e dos mistérios ao nosso redor perpassa a prosa de Guimarães Rosa engenhosamente, conferindo aos seus leitores um verdadeiro arrebatamento literário.

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Referências Utilizadas:

ROSA, J. G. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.
ISBN: 9788520911518

BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. pp. 428-434.

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Filmoteca: A Terceira Margem do Rio (1994). Filme dirigido por Nelson Pereira dos Santos, com Chico Díaz, Jofre Soares e Vanja Orico.

Indico esta interessante adaptação que alinhava os enredos de vários contos do livro de Guimarães Rosa. O filme é mais focado em personagens e acontecimentos de “A Terceira Margem do Rio” e “A menina de lá”, mas também trás elementos de “Os irmãos Dagobé”, “Sequência” e “Fatalidade”, que se conectam de forma bastante criativa à trama principal. Destaque para a ótima trilha sonora na voz de Milton Nascimento.

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