#27 Com os Meus Olhos de Cão

Título: Com os Meus Olhos de Cão

Autora: Hilda Hilst

Primeira Publicação: 1986

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Globo (Selo Biblioteca Azul)

“Minha pobreza é a secura do espírito. Minha solidão é ter ficado prisioneiro daquele sentir no alto da colina e hoje só encontrar elos de areia, correntes de pó.”

Durante muitos anos, a paulista Hilda Hilst não possuiu notoriedade dentro do nosso cenário literário, tendo seus textos publicados por pequenas editoras sem muita abrangência comercial e divulgação. Com uma carreira de quase meio século dedicada às letras, sem limites temáticos ou estéticos, a escritora foi percebida pelos críticos ainda em vida, recebendo alguns dos mais importantes prêmios da literatura brasileira. Seus livros vêm aos poucos obtendo o almejado reconhecimento popular, sendo merecidamente cultuados por leitores dentro e fora do país.

A novela Com os Meus Olhos de Cão marcou o primeiro lançamento de Hilda por uma grande editora, em 1986, aparecendo como o único escrito inédito de uma coletânea com alguns dos mais importantes textos da autora, como A Obscena Senhora D e Tu Não Te Moves de Ti. Nesta obra, o professor de matemática Amós Kéres, depois de ter uma experiência epifânica no alto de uma colina próxima à Universidade em que trabalha, passa a avaliar sua vida, suas relações com o tempo, com o mundo e com a representação de Deus.

Vemos logo nas primeiras linhas que o protagonista, ainda criança, impressionado com a morte de um cachorro, fazia perguntas incômodas, que eram reprimidas pelo pai e ignoradas pela mãe. O menino dedicou-se ao estudo dos números, cresceu e tornou-se educador, constituindo família, mas ainda guardando em seu interior as muitas e tristes dúvidas da infância. A iluminação mística no alto do monte retoma tais indagações num intenso processo de desconstrução de tudo o que fazia parte de Amós, tornando-o indiferente à realidade que o cerca, implicando em seu afastamento do trabalho, na aversão à mulher e ao filho, chegando ao ponto em que ele tem apenas o amigo e também matemático Isaiah como interlocutor, apesar dos dois mais se compreenderem do que conversarem. Este personagem destaca-se no enredo pelo fato curioso de conviver intimamente com uma porca branca.

A escrita de Hilst é vertiginosa, labiríntica, misturando prosa e poesia num rico processo enunciativo que impregna o texto com um sentimento de decifração. Temos aqui um narrador de terceira pessoa bastante sutil e ambíguo, cujo discurso se confunde com o do personagem principal durante quase toda a novela. A passagem deste narrador para um de primeira pessoa ou entre o presente e o passado não é realizada por procedimentos óbvios, desafiando o leitor a desmontar o texto frase por frase. A linguagem segue o tom rápido do fluxo de consciência de Amós, sendo constituído por várias vozes que se sobrepõem, fugindo de uma narrativa tradicional.

O protagonista, na busca por sua verdade essencial, confronta suas insatisfações e descrenças, entregando-se à sua “natureza” animal e indo de encontro a um final libertador e memorável.

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Referências Utilizadas:

HILST, H. Com os meus olhos de cão. São Paulo: Editora Globo, 2006.
ISBN: 8525041009

www.hildahilst.com.br

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Musicoteca: Força Verde (1982). Disco de Zé Ramalho.

O quarto álbum de estúdio de Zé Ramalho pode ser um bom acompanhamento para a leitura desta novela de Hilda Hilst. As composições do álbum fazem referência a deuses, à Bíblia, ao Apocalipse e à própria paixão.

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