#26 O Pagador de Promessas

Título: O Pagador de Promessas

Autor: Dias Gomes

Primeira Publicação: 1961

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Bertrand Brasil

“Promessa é promessa. É como um negócio. Se a gente oferece um preço, recebe a mercadoria, tem que pagar. Eu sei que tem muito caloteiro por aí. Mas comigo, não. É toma lá, dá cá.”

Os escritos do dramaturgo Dias Gomes retratam de forma admirável a miscigenação cultural do povo brasileiro. Uma de suas peças mais famosas, O Pagador de Promessas, representou um sopro de renovação para o teatro nacional dos anos 1960, trazendo aos palcos a sinceridade e ingenuidade do homem rural arraigada a tradições religiosas que são contestadas pelo sistema urbano. Dividida em três atos, a obra foi apresentada ao público em um período de turbulência política, poucos anos antes do início da ditadura militar. O texto, logo publicado em livro e adaptado para o cinema, trouxe renome internacional ao autor baiano.

O enredo da peça segue os moldes das narrativas heroicas, apresentando como protagonista um simplório sertanejo que tenta honrar uma promessa. Zé-do-Burro pede a Santa Bárbara que salve seu burro Nicolau, que fora ferido por um galho de árvore. Como na região não havia uma igreja dedicada à santa, a promessa foi feita em um terreiro de candomblé, onde a santa ganha o nome de Iansã. O animal se recupera e o homem tenta cumprir a dívida com o divino: compartilha seu sítio com lavradores pobres e inicia um percurso até Salvador, carregando uma pesada cruz de madeira a fim de depositá-la no interior da igreja de Santa Bárbara.

O homem caminha sete léguas do interior baiano até a capital, sendo acompanhado por sua mulher Rosa. Os dois chegam ao destino de madrugada, alojando-se nas escadarias da igreja, que estava de portas fechadas. O padre Olavo, titular da igreja de Santa Bárbara, impede Zé de entrar no sagrado recinto escandalizado com a história contada pelo sertanejo. Obstinado, o protagonista insiste em permanecer, ignorando os apelos da mulher para partirem. É então que o movimento em frente à igreja aumenta e o casal vira o assunto da cidade.

A diversidade das ruas de Salvador é representada através de figuras secundárias que exercem certa influencia na via-crúcis de Zé: as beatas, a vendedora de acarajés, o dono de bar, do policial, o poeta popular, o capoeirista, a prostituta, o malandro e o repórter sensacionalista.

A peça possui um dos mais empolgantes desfechos da literatura nacional. O conflito vivido por Zé sintetiza a crítica de Dias Gomes ao conservadorismo clerical: o embate entre as crenças populares, também formadoras da tradição religiosa brasileira, e os dogmas rigorosos da igreja. O sincretismo religioso é aqui ponto de reflexão, assim como o ritualismo engessado da religião católica. Outras temáticas também são debatidas pelo autor, como a linha que separa o campo da cidade, a reforma agrária, a traição e o jogo de interesses.

O protagonista simboliza a liberdade do povo ligada à fé. Todas as pessoas são livres para acreditar ou não em qualquer deus, para seguir ou não qualquer religião. A crença é algo pessoal e intransferível. O autoritarismo e imposição de determinadas doutrinas põe em risco o valor laico do nosso país, onde deveria haver igualde religiosa, não hierarquia.

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Referências Utilizadas:

GOMES, D. O pagador de promessas. São Paulo: Editora Bertrand Brasil, 2008.
ISBN: 8528603170

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Filmoteca: O Pagador de Promessas (1962). Filme dirigido por Anselmo Duarte, com Leonardo Villar, Glória Menezes, Dionísio Azevedo, Norma Bengell e Othon Bastos. // O Pagador de Promessas (1988). Minissérie dirigida por Tizuka Yamasaki, com José Mayer, Joana Fomm e Walmor Chagas.

As duas ótimas produções baseadas na peça tiveram o próprio Dias Gomes auxiliando nos bastidores. O filme é até hoje lembrado como um dos melhores do Brasil, sendo vencedor de diversos prêmios, incluindo a Palma de Ouro na categoria de melhor filme no Festival de Cannes, todos no mesmo ano de seu lançamento. A minissérie em 12 capítulos expande um pouco a trajetória de Zé do Burro, agregando mais acontecimentos e personagens. Teve de ser reeditada por imposição da censura, sendo transmitida na TV em apenas 8 episódios. Sua versão integral foi lançada em DVD.

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Musicoteca: Aleluia (2012). Disco de Cascadura.

Este álbum duplo da banda baiana Cascadura é perfeito para acompanhar a leitura da obra. A sonoridade de Aleluia combina demais com o texto escrito por Dias Gomes.

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2 Comentários

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