#22 Triste Fim de Policarpo Quaresma

Título: Triste Fim de Policarpo Quaresma

Autor: Lima Barreto

Primeira Publicação: 1915

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Ática

“Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da pátria tomou-o todo inteiro.”

A escrita de Lima Barreto apresenta uma mistura corajosa de crítica, análise e humor. Com Triste Fim de Policarpo Quaresma, o autor demonstrou-se consciente dos reais problemas do Brasil do final do século XIX. Ao mesmo tempo em que critica algumas das mazelas sociais daquela época, o carioca traz à tona os perigos de um nacionalismo absurdo, convertido na figura de um Major. O livro foi publicado inicialmente em folhetim, entre os meses de agosto e outubro de 1911, na edição vespertina do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, tendo seus capítulos lançados em edição única apenas quatro anos depois.

O protagonista, Policarpo Quaresma, era um homem exageradamente nacionalista, com ideias loucas que visavam à constituição de uma identidade brasileira. Era pequeno e magro, leitor voraz da literatura nacional, na qual buscava saídas para os problemas do país. Morava com a irmã, Adelaide, e trabalhava como funcionário público no início da República. Logo se viu criticado pela vizinhança, que não via com bons olhos alguém sem formação acadêmica como possuidora de livros. Desencantou-se com o folclore e música popular por não conseguir aprender a tocar violão, indo atrás das tradições indígenas, que considerava genuinamente nacionais.

Acabou tomando a visão de que tudo no Brasil devia ser brasileiro. O amigo Ricardo Coração dos Outros e a afilhada Olga são os únicos que valorizavam as suas ideias de mudança. Ao escrever um requerimento para então assembleia legislativa republicana, sugerindo que o Tupi-guarani fosse aceito como o idioma oficial brasileiro, Policarpo é ridicularizado na imprensa e no meio social. De volta ao trabalho, distraído, redige um documento oficial naquela língua e é internado como louco, dando início às desventuras que o acompanham até o seu triste fim, já indicado no título.

Percebe-se que a obra atravessa as três bases que constituíam a nação: sua língua, sua terra e sua política. O Major falha nas três instâncias, acarretando maior decepção na terceira.

A maior lição que Policarpo nos deixa é que nem todos os políticos são honestos, que muitos não se interessam realmente pela melhoria do país e pelo seu povo. Ademais, o Major não parece um maluco completo, pois só tentou alcançar seu objetivo em todo o livro. Seu amor exacerbado pela pátria acabou por “vendá-lo” em relação a determinados aspectos daquela realidade, mas é esse mesmo amor que acaba encantando os leitores pela figura de certa forma ingênua do personagem principal.

A leitura da romance pode parecer, a princípio, um pouco cansativa e maçante, apesar deste possuir uma linguagem simples, sem floreios, se aproximando propositalmente do relato jornalístico. A narração é dada em terceira pessoa, sem que haja qualquer interferência crítica do narrador na história.

O livro abre margem para a discussão sobre o patriotismo e o poder de mudança da população brasileira. As atuais manifestações de rua contra os governantes e suas duvidosas decisões mostram que muitos ainda têm um pouco de Policarpo Quaresma dentro de si. Ainda bem.

Download gratuito do livro na biblioteca digital Domínio Público

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Referências Utilizadas:

BARRETO, L. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Editora Ática, 2010. (Série Bom Livro).
ISBN: 9788508043187

BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. p. 319.

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Filmoteca: Policarpo Quaresma, Herói do Brasil (1998). Filme dirigido por Paulo Thiago, com Paulo José e Giulia Gam.

A adaptação do livro une momentos divertidos a uma narrativa bastante lírica. Embora respeite em linhas gerais o enredo da obra, o filme toma algumas liberdades e satiriza o cenário político do final da década de 1990. O trabalho do ator Paulo José como o protagonista Policarpo é primoroso.

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Musicoteca: Disco Tropicalia ou Panis et Circencis (1968).

O histórico álbum liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, com participação de Tom Zé, Os Mutantes, Gal Costa e Nara Leão causou um enorme impacto no cenário artístico brasileiro e é uma ótima pedida para acompanhar a leitura do livro de Lima Barreto.

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5 Comentários

  1. Recomendadíssimo. Abs.

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  2. Um dos livros que mais gostei de ler na juventude,e olhe que nem sou assim tão fã de ficção.O texto é fluente e inteligente ao mesmo tempo.Talvez o seu estilo jornalístico tenha me agradado tanto.Lima Barreto e sua arte de escrever,devia ser obrigatório nas escolas.Se bem que leitura forçada nunca funcionou.

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    • Esse livro é demais mesmo, Ademar! O mestre Lima Barreto merecia mais visibilidade além da obrigação acadêmica, recebendo lugar cativo na estante de muitos leitores. Grande abraço e obrigado pela visita!

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  1. #68 tropicalia ou panis et circencis | 1001 Discos Brasileiros Para Ouvir Antes de Morrer

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