#19 Menino de Engenho

Título: Menino de Engenho

Autor: José Lins do Rego

Primeira Publicação: 1932

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora José Olympio

“A minha memória ainda guarda detalhes bem vivos que o tempo não conseguiu destruir.”

O paraibano José Lins do Rego soube registrar com maestria a paisagem e a vida na região canavieira do interior do Brasil, utilizando-se de sua memória e observação. O escritor expressou sua arte literária por meio de uma linguagem forte e espontânea, típica dos cantares de origem popular. Sua primeira publicação em livro, Menino de Engenho, inaugurou a série de cinco romances conhecida como “Ciclo da cana-de-açúcar”, apresentando uma perspectiva realista do processo de industrialização dos engenhos açucareiros em um Nordeste marcado pela decadência social.

O enredo parte da visão ingênua do narrador-protagonista Carlinhos para mostrar como viviam as famílias dos coronéis e trabalhadores nas antigas fazendas de açúcar, construindo também um retrato sensível da infância sertaneja na virada do século XX.  No decorrer da narrativa, o menino revela seus sentimentos, revoltas e descobertas em relação àquela áspera realidade que, consequentemente, culminariam na perda de sua ingenuidade. Logo nas primeiras páginas, o personagem, com apenas quatro anos de idade, tem a mãe assassinada pelo pai em um súbito de loucura. Ele então é levado pelo seu tio Juca para ser criado pelo avô materno, o velho coronel José Paulino. Em sua nova casa, conhece a carinhosa tia Maria, que procura suprir a ausência da falecida irmã na vida do pequeno, além da carrancuda e autoritária tia Sinhazinha. O seu olhar ainda destaca a figura da velha Totonha, grande contadora de histórias, todas carregadas de superstições e crendices. Outros importantes papeis que compõem o relato da criança foram depois retomados em outros títulos de José Lins, como o Coronel Lula de Holanda, o sapateiro José Amaro, o escravo Passarinho, entre outros.

Com o tempo, o garoto vai se acostumando com o ambiente, aprendendo, crescendo com aquela terra. Ele entra em contato com a violência da natureza, presencia o embate entre classes, situações de injustiça e de vícios ao mesmo tempo em que aflora seus instintos ante a puberdade e inicia precocemente as experiencias amorosas e sexuais. Todavia, o desenvolvimento textual em primeira pessoa acarreta um tratamento bastante sensível a estas intensas transformações ligadas ao crescimento pessoal. Com isso, a obra acaba por dar maior atenção à descrição orgânica dos conflitos humanos em detrimento da problematização social daquele duro cenário.

O trabalho bem arrojado e em tom de conversa simples ressalta-se dentro da larga produção de Rego, evidenciando uma atmosfera mais intimista que institui uma interessante tensão eu/realidade: o que o romance traria de autobiográfico? No fim, percebemos que Carlinhos desfrutou de uma liberdade inesquecível, adquirindo valiosas experiências frutos do cotidiano simples, as quais ele compartilha como verdadeiros tesouros.

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Referências Utilizadas:

REGO, J. L. Menino de engenho. Rio de Janeiro, 49ª ed.: Editora José Olympio, 2008.
ISBN: 9788503003414

BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. pp. 397-400.

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Filmoteca: Menino de Engenho (1965). Filme dirigido por Walter Lima Jr., com Geraldo Del Rey, Sávio Rolim e Anecy Rocha.

A adaptação cinematográfica do romance foi realizada com requinte, obtendo bastante sucesso de público e reconhecimento da crítica. Com produção assinada pelo grande Glauber Rocha, o filme marcou a estreia do diretor Walter Lima Jr., sendo gravado em preto e branco no engenho de Maria Menina, mulher que criou o escritor José Lins do Rego, situando a narrativa na década de 1920. Destaque para a atuação do jovem Sávio Rolim como Carlinhos e de Rodolfo Arena como o coronel José Paulino.

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Musicoteca: Vivência (1973). Disco da Banda de Pau e Corda.

Indico o som deste incrível grupo pernambucano para acompanhar a leitura da história de Carlinhos. O disco em questão apresenta composições pautadas na realidade nordestina, nos costumes e na força de seu povo, com arranjos inspirados por cirandas, modinhas, frevos, xotes, maracatus e baiões.

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4 Comentários

  1. Não sei porque,mas esse romance me remete à música” Morro velho” de Milton nascimento.Uma fase bem regional do compositor carioca-mineiro.

    Resposta
    • Olá, Ademar! Não conhecia esta canção do grande Milton. Realmente sua melodia e letra remetem muito à atmosfera do livro. Abraços!

      Resposta
  1. #79 correio da estação do brás | 1001 DISCOS BRASILEIROS PARA OUVIR ANTES DE MORRER
  2. meus livros favoritos de 2016 | satãnatório

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