#13 Senhora

Título: Senhora

Autor: José de Alencar

Primeira Publicação: 1875

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Ática

“… essa riqueza servirá para dar-me a única satisfação que ainda posso ter neste mundo.”

Os romances de cenário urbano do fortalezense José de Alencar são, a meu ver, ponto mais alto da sua trajetória na literatura. Senhora, última a ser publicada dentre suas ficções citadinas, é até hoje a mais lembrada dentre suas obras, sendo destacado pelo seu ótimo enredo que atenta à linha tênue entre o amor e o interesse, trazendo a sociedade burguesa brasileira do século XIX como vilã. A narrativa se organiza em quatro partes que simbolizam as fazes de uma operação comercial, construindo uma metáfora para o casamento norteado pelo dinheiro: “O preço”, “Quitação”, “Posse” e “Resgate”. Tal tipo de relacionamento se torna o principal tema tratado no livro, em carro-chefe guiado pelos protagonistas Aurélia Camargo e Fernando Seixas.

Narrada em terceira pessoa, com linguagem rebuscada, de beleza singular e cheia de analogias, a obra apresenta a jovem Aurélia, de procedência humilde, que vive um romance com o também pobre e jornalista Fernando. Este sempre foi encantado com as festas do alto meio social, transformando-o em um tipo ambicioso. A relação entre os dois se desfaz quando o pai de uma moça, de nome Adelaide, oferece um grande dote ao mancebo para que ele se casasse com sua filha. Fernando aceita e Aurélia sofre a perda de seu amado para o dinheiro. A protagonista ainda se vê órfã, perdendo rapidamente sua mãe e irmão. A vida acaba recompensando-a com uma enorme herança de seu único parente, desconhecido até então, o avô paterno Lourenço Camargo.

Aurélia acende socialmente, se destacando nos salões e festas dos grandes casarões cariocas. Porém, a dignidade ferida acaba por levar a jovem à vingança. De personalidade forte e pensamento diferente das outras mulheres daquela época tão machista, ela não se aceitava como uma mercadoria. Acreditava no amor, mas não era ingênua. Determinada, acaba negociando um casamento com Seixas, através de seu tio e tutor Lemos, “comprando-o” com um dote maior ao oferecido na época da separação, agora aceito por motivo de verdadeira necessidade por parte de Fernando. Seu plano, de certo modo obsessivo, guiado pelo rancor dos acontecimentos do passado, começa a se realizar. A história se torna mais intensa a partir dai, revelando a abordagem psicológica muito bem moldada pelo autor nos acontecimentos que se sucedem e principalmente nos conflitos entre o casal protagonista.

Esta narrativa pode ser considerada por alguns leitores como rasa e até carregada de clichês, mas a atração por obras marcadas pelo tema amoroso ainda se faz presente na vida de muitas pessoas, visto a manutenção do sucesso das novelas brasileiras que em muito já beberam dos escritores nacionais do século XIX. Ademais, o romance apresenta alguns traços interessantes, mais precisamente ligados à construção da psique dos personagens e na sua descrição exterior, afastando-os um pouco de um perfil maniqueísta (ainda que a obra não contenha em suas páginas o pessimismo e o ceticismo de um futuro Machado de Assis).

Muito detalhista, Alencar consegue, ao mesmo tempo, intrigar e cativar o leitor, prendê-lo ao livro, fazendo-o pensar sobre o real valor dos sentimentos diante dos valores morais ditados pela sociedade.

Download gratuito do livro na biblioteca digital Domínio Público

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Referências Utilizadas:

ALENCAR, J. Senhora. São Paulo, 32ª ed.: Editora Ática, 1998. (Série Bom Livro).
ISBN: 9788508040780

BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. pp. 134-140.

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Filmoteca: Senhora (1976). Filme dirigido por Geraldo Vietri, com Elaine Cristina e Paulo Figueiredo.

Esta adaptação cinematográfica é ótima, apesar de ter um desfecho diferente do livro. A fotografia do filme e o figurino dos personagens ajudam a construir a atmosfera da obra de Alencar, um verdadeiro retrato do século XIX.

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Musicoteca: Suculento (2012). Disco de Luiz Gadelha.

As melodias e letras do álbum Suculento, do potiguar Luiz Gadelha, compõem um harmonioso conjunto no tocante ao livro de José de Alencar. Vale a pena experimentar o som deste talentoso artista cuja música serve-se principalmente da reflexão acerca do amor humano.

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5 Comentários

  1. helodangelo

     /  16 de janeiro de 2014

    Esse livro é demais! Achei uma versão lindíssima em capa dura num sebo em SP. Vale a pena mesmo :)

    Resposta
    • Livros de capa dura dão aquele toque mágico à leitura, ainda mais quando se trata de um clássico como esse. Sua edição deve ser linda mesmo, Helô. Um abração! :)

      Resposta
  2. Eu também tenho um certo fetiche por livros de capa dura.Quanto ao romance, é um clássico que permanece.Me lembrei de duas novelas produzidas pela Globo e Record,inspiradas nesta obra.

    Resposta
    • Os livros de capa dura devem ser mesmo os mais queridos nas estantes de muitos leitores, Ademar. :) Lembrei apenas da adaptação feita pela Rede Record que unia ‘Senhora’ a outras obras do Alencar, a novela ‘Essas Mulheres’, mas sabia sim da existência das outras versões televisivas do livro. Não indico novelas na seção ‘Filmoteca’ por serem de difícil encontro e também por não ter assistido nenhuma em totalidade para poder comentar com mais opinião. Obrigado pela visita!

      Resposta
  1. #28 suculento | 1001 DISCOS BRASILEIROS PARA OUVIR ANTES DE MORRER

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