Literafilia: Sobre Dedicatórias

Minha relação com estes pequenos (ou grandes) textos, escritos geralmente na folha de rosto dos livros, sempre se deu de forma difícil. Desde que li meu primeiro livro, tive comigo que um livro não era feito para se escrever nada além do que já vinha escrito nele. Qualquer reflexão ou comentário deveria ser escrito em outro lugar. Entendia o valor afetivo das dedicatórias, mas não as queria nos livros. Por que não as escrever em papéis separados (como em cartões comemorativos) e depois as entregar dentro dos livros? Por que não simplesmente as proferir oralmente?

O tempo tratou de ir modificando meu pensamento. Descobri os sebos e neles os livros antigos. As edições de capa dura e folhas amareladas com o tempo me encantaram e eu logo tratei de adquiri-las como podia. Fui notando que, em sua maioria, os livros traziam escritos momentos especiais de seus últimos leitores, grandes recordações. Passei a ler as dedicatórias como genuínos achados históricos. Dedicatórias de mães, filhos, amigos, namorados e até dos próprios autores, cujas palavras escritas à mão retratavam sentimentos diversos. Os textos me faziam pensar e imaginar como seriam as pessoas envolvidas com eles. Será que eram próximas? Não se viam há muito tempo? Teria a pessoa que recebeu a dedicatória gostado do que leu? Na minha cabeça, os donos de sebo se tornaram verdadeiros guardiões de relíquias. São pelas histórias detrás dos livros que muitos leitores preferem e amam os exemplares com dedicatórias. Elas acabam tornando as edições diferentes de todas as demais, especial.

Meu encanto só aumentou com a descoberta das dedicatórias que já vinham impressas nos livros. Algumas eram fictícias, ganhando importância dentro das obras e contribuindo para o seu valor estético, como a do personagem-narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e a do narrador Rodrigo S.M. em A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. Outras eram como as escritas a mão, direcionadas a pessoas importantes para o autor no desenvolvimento da escrita do livro. Alguns ofereciam seus títulos a outros autores, algo fantástico que me fez conhecer ainda mais a vida destes escritores e as relações de amizade que mantinham com outros de mesma arte.

Mas as dedicatórias podem também criar desavenças. Lembro que presenciei uma vez a decepção de uma mulher ao encontrar em um sebo um livro cuja dedicatória tinha direcionado a uma amiga que considerava muito próxima. Acredito que quem escreve esses textos imagina que a pessoa que os recebe os guardará para sempre, o que muitas vezes não acontece. Ademais, penso que esse ato pode ser justificado, mas também pode ser evitado. Uma dedicatória às vezes traz algo muito pessoal e íntimo, que pode ser guardado sim eternamente, como um tesouro.

Hoje ainda me pego meio aflito com escritos nos livros que compro ou ganho. Ainda prefiro escrever dedicatórias em papéis separados e me enfureço com quem risca os livros, seja em qualquer circunstância. Porém, ainda mantenho meu apreço pelas palavras de carinho e histórias maravilhosas que as dedicatórias trazem. Talvez me sinta atraído pelas dedicatórias direcionadas a outras pessoas… Mas deixemos os fetiches literários para outra hora.

> O curta Dedicatórias apresenta uma história bem peculiar de amor entre uma leitora e os textos escritos à mão que esta encontra nos livros.

> O tumblr Eu Te Dedico desenvolve um projeto bem legal, compartilhando dedicatórias e suas histórias com os leitores. Vale a pena dar uma olhada.

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