#07 Auto da Compadecida

Título: Auto da Compadecida

Autor: Ariano Suassuna

Primeira Publicação: 1955

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Agir

“Não sei, só sei que foi assim.”

Na literatura dramática, o auto é um gênero dotado de elementos cômicos e temática moral, com frequente inspiração religiosa e personagens alegóricos, ora virtuosos, ora pecadores. O auto de Ariano Suassuna é um drama nordestino com toques de humor baseado em contos populares do Nordeste, com elementos da literatura de cordel. Auto da Compadecida foi encenado pela primeira vez em 11 de setembro de 1956 (um ano depois de sua publicação em livro), no teatro Santa Isabel, em Recife-PE, sob a direção do dramaturgo Clênio Wanderley. A peça tem o enredo apresentado por um palhaço (uma possível alegoria ao próprio autor), que entra e sai da trama, conversando com o público e estimulando seu pensamento crítico em genuína modalidade cênica popular. Um texto introdutório orienta a encenação e explica o espírito simples da obra, que deveria ter o palco, em cena inicial, como um picadeiro de circo.

O enredo conta as aventuras do protagonista João Grilo, homem pobre, mas astuto, e seu melhor amigo Chicó, figura medrosa que gosta de contar histórias. No início da narrativa, que se passa no município de Taperoá (no cariri paraibano), os dois tentam convencer o Padre a benzer o cachorro doente da mulher de seu patrão, o Padeiro. O animal acaba morrendo e João Grilo consegue com que o Padre faça o enterro do bicho em latim com a desculpa de que o cachorro havia lhe deixado em testamento dez contos de réis e três para o Sacristão. O Bispo, que logo descobre o caso, concorda com a situação depois que Grilo inventa que o cachorro deixou seis contos para a diocese e apenas quatro para a paróquia.

Os dois sertanejos então armam para venderem um gato que “descomia” dinheiro para a interesseira mulher do Padeiro, enfiando moedas em um gato de rua. Porém, uma invasão na cidade liderada pelo cangaceiro Severino e seus capangas, acabam levando o plano de João Grilo a um rumo diferente, culminando no julgamento de alguns dos personagens diante de Jesus, da Virgem Maria (a Compadecida) e do Diabo.

O palhaço antecipa os vários momentos da narrativa, fazendo os espectadores apreciarem o trabalho com o desenrolar da história, seu detalhamento, não se importando com um final inesperado, em um fenômeno típico da tradição oral.

A peça retrata a difícil realidade vivida pelo povo nordestino no passado, seus dilemas envolvendo a miséria, a fome e a seca. O protagonista vem representar a única arma desse povo oprimido: a inteligência. Ariano consegue unir com maestria influências medievais (a religiosidade) e da cultura popular brasileira, utilizando a técnica de recriação de episódios folclóricos já conhecidos de cordéis. Trata-se de uma obra de linguagem simples e leve, que nos faz rir com as facetas de seus personagens, em que destaco a especial inventividade de Chicó, cujas histórias, verdades ou mentiras, só sabemos que aconteceram daquele jeitinho mesmo como foram contadas.

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Referências Utilizadas:

SUASSUNA, A. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Agir, 2004.
ISBN: 9788522006588

arianosuassuna.zip.net

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Filmoteca: O Auto da Compadecida (2000). Filme dirigido por Guel Arraes, com Matheus Nachtergaele, Selton Mello e Fernanda Montenegro.

Indico a mais famosa adaptação feita do livro para o cinema.* O filme mescla elementos de outras duas obras teatrais do autor, O Santo e a Porca e Torturas de um Coração, ao enredo do auto. A produção também teve uma versão estendida para a televisão, em série exibida pela Rede Globo, com algumas tramas paralelas. Tive a oportunidade de conhecer a cidade em que o filme foi gravado, Cabaceiras, aqui no meu estado. Vários moradores da famosa “Roliúde Nordestina” participaram da montagem como figurantes e guardam até hoje memórias dos dias de filmagem. Ainda estão lá a casa do Padeiro e a Igreja, cenários de boa parte das cenas da narrativa. Apesar de não ser totalmente fiel à peça de Ariano, esta versão cinematográfica da saga de João Grilo (muito apreciada pelo escritor) se tornou um clássico do cinema brasileiro.

* A primeira adaptação cinematográfica da obra, um pouco menos conhecida, foi rodada na cidade Brejo da Madre de Deus, em Pernambuco, e teve parte do roteiro adaptado pelo próprio Ariano Suassuna. A Compadecida (1969), dirigido por George Jonas, é estrelado por Regina Duarte, Antônio Fagundes e Armando Bógus, além de apresentar o comediante Ary Toledo como a figura do palhaço narrador.

O grupo humorístico Os Trapalhões – composto por Didi Mocó (Renato Aragão), Dedé Santana, Mussum e Zacarias – também realizou uma divertida versão da peça para o cinema, dirigida por Roberto Farias. Os Trapalhões no Auto da Compadecida (1987) é tido pelos fãs e pela crítica como o mais bem elaborado filme da trupe de humor brasileira.

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Musicoteca: Ave Sangria (1974). Disco de Ave Sangria.

Indico o som “psicodélico rural” da banda pernambucana Ave Sangria para acompanhar a leitura da obra. O disco Ave Sangria é o único álbum de estúdio lançado pelo grupo, infelizmente.

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3 Comentários

  1. “Num sei, só sei que foi assim…”. Esse aqui é o par mais épico de todos. Tanto filme como livro viraram lenda, rs. Pra mim não importa o que venha por aí, esse filme ainda vai ser top. Enfim, legal o blog não ser pura e apenasmente de resenhas. Dá uma pausa e tal. Eu gostei! Botei lá na listinha do meu também.

    Resposta
  1. #22 ave sangria | 1001 DISCOS BRASILEIROS PARA OUVIR ANTES DE MORRER
  2. Listeratura: Amizades na Ficção | 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer

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