#05 A Hora da Estrela

Título: A Hora da Estrela

Autora: Clarice Lispector

Primeira Publicação: 1977

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Rocco

“Ela pensava que a pessoa é obrigada a ser feliz.”

Clarice Lispector é, sem dúvida, uma das mais célebres autoras das nossas letras, reconhecida pela crítica acadêmica e pelo grande público. Sua prosa ficcional é marcada pelo fulgor epifânico, abarcando situações das mais cotidianas em imersivas tramas psicológicas, fisgando o extraordinário do imperceptível. Com o notável A Hora da Estrela, ela apresentou a síntese de sua visão sobre a existência humana por meio das manifestações conflitivas de uma personagem sofrida e cuidadosamente delineada. O romance confronta realidade social e vivência interior de forma provocadora e deveras impactante, além de revelar uma contundente reflexão sobre a própria arte de escrever e os limites da linguagem.

O enredo é focado em Macabéa, uma migrante nordestina de vida simples e sem perspectivas. Órfã, a sertaneja é apresentada com dezenove anos, vivendo no Rio de Janeiro. Havia sido criada por uma tia desde a morte dos pais quanto ainda era criança, herdando suas superstições e tabus. Quando esta morreu, a jovem passou a dividir um quarto com quatro balconistas de uma loja popular: Maria, Maria da Penha, Maria Aparecida e Maria José. Acabou sendo contratada como datilógrafa, recebendo menos de um salário mínimo mesmo desempenhando um péssimo serviço por ter estudado pouco e transcrever textos com muitos erros de ortografia. A jovem raramente tomava banho e, à noite, não dormia direito por causa da tosse persistente, da azia (em virtude do café frio que sorvia antes de se deitar) e da fome, a qual tentava disfarçar comendo pedacinhos de papel. Era magra e pálida por não se alimentar direito, resistindo à base do cachorro-quente com Coca-Cola que comia na hora do almoço em alguma lanchonete ou no escritório em que trabalhava.

Num dia em que decidiu faltar ao emprego, Macabéa conheceu o paraibano Olímpico de Jesus, homem mal-caráter e ambicioso que, fugindo de um crime cometido no passado, havia conseguido um emprego numa firma metalúrgica, onde morava de favor. O sujeito costumava roubar os colegas e almejava um dia ser deputado. Os dois logo começaram a namorar, mas a relação mostrou-se bastante abusiva, precária de afeto e comunicação. Ele se irritava com as perguntas feitas por ela (na verdade, por não saber responder), o que a levava constantemente a se desculpar com medo de perdê-lo. Todavia, seu contato com Glória, mulher de personalidade muito diferente da dela, acarretará mais infortúnios sem, entretanto, impedir que a moça vislumbre um futuro feliz.

Os traços melancólicos, a vida sem brilho, o comportamento solitário e, principalmente, o silêncio que envolve sua rotina sem relevo transformaram Macabéa numa das personagens mais especiais e intrigantes da literatura nacional. Sua ingenuidade e atitude passiva irritam e cativam com a mesma intensidade. Contudo, parece ser a descrição de seus hábitos mais particulares a chave de tanta empatia, aliviando com muito pouco a amargura daquele universo que tanto a oprimia. Era ouvindo a Rádio Relógio num aparelho emprestado, colecionando e colando num álbum anúncios de jornais e revistas, pintando as unhas de vermelho para depois roê-las, comprando uma rosa ou indo ao cinema quando recebia o salário que ela fugia daquela realidade hostil e sonhava em ser a estrela de seu próprio destino.

A escritora construiu um rico panorama metalinguístico através da anrrativa, pelo qual conhecemos seu processo de criação. O drama de Macabéa nos é apresentado por outro personagem, o escritor Rodrigo S. M., que duela com as palavras e os fatos a serem postos no papel ao mesmo tempo em que se identifica profundamente com aquela figura miserável cujo olhar havia sido captado no meio da multidão quando este andava na rua. O narrador, que também se torna protagonista do livro, ao contar as desventuras da jovem alagoana, descobre mais acerca de sua respectiva identidade, percebendo que falar do outro é falar de si mesmo. Ele em várias passagens faz notar sua revolta e solidariedade em relação aos acontecimentos, chegando a manifestar um enorme pesar por pertencer a um padrão elevado em comparação à população marginalizada. Com isso, provoca os leitores a também se colocarem no lugar de Macabéa, experimentando sua tristeza e  percebendo que, no fundo, ela faz parte de todos nós.

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Referências Utilizadas:

CAMPEDELLI, S.; ABDALA JR., B. Literatura comentada: Clarice Lispector. São Paulo: Abril, 1981.

LISPECTOR, C. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
ISBN: 9788532508126

www.claricelispector.com.br

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Filmoteca: A Hora da Estrela (1985). Filme dirigido por Suzana Amaral, com Marcelia Cartaxo, José Dumont e Fernanda Montenegro. // Macabéia (2000). Curta-metragem dirigido por Erly Vieira Jr, Lizandro Nunes e Virgínia Jorge, com Janine Corrêa, Gecimar Lima e Marlene Cosate.

A primeira adaptação fílmica do romance foi premiada no importante Festival de Berlim e é até hoje aclamada como um clássico do nosso cinema. O roteiro excepcional de Suzana Amaral conseguiu passar o poder narrativo e o estilo único da autora para a tela grande, ao mesmo tempo em que agregou uma série de construções simbólicas que homenageiam detalhes pontuais da obra. Destaque para a atuação inesquecível de Marcelia Cartaxo como a protagonista. Já a inusitada história de Marluce (vivida por Janine Corrêa) reimagina a saga de Macabéa numa versão mais moderna e com um final modificado, o que talvez explica a vogal “i” acrescentada ao nome da personagem principal do livro que dá título ao curta-metragem.

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Musicoteca:  A Beira e o Mar (1984). Disco de Maria Bethânia.

Indico para acompanhar a leitura do livro a voz e a interpretação marcantes de Maria Bethânia. O álbum em questão foi baseado no show “A Hora da Estrela”, inspirado, por sua vez, na narrativa escrita por Clarice Lispector. As apresentações intercalavam trechos do livro com releituras de grandes sucessos do repertório de Elizeth Cardoso, Alceu Valença, Luiz Gonzaga e Altemar Dutra, além de canções inéditas, como a ótima “Pra Eu Parar de Me Doer”, assinada por Milton Nascimento e Fernando Brant. Destaque para as composições de Caetano Veloso e, dentre elas, os versos do tema que abre o disco: “Há uma certeza em mim / Uma indecência / Que toda fêmea é bela / Toda mulher tem sua hora / Tem sua hora da estrela / Sua hora da estrela de cinema”.

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5 Comentários

  1. O longa metragem é ótimo.Eu nem sabia da existência do curta.Quanto ao livro,pretendo ler, um dia.

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  2. Taberneira

     /  28 de dezembro de 2015

    Melhor livro, melhor filme… Por tantos anos me senti uma Macabéa…

    Resposta
  3. Fiz um trabalho na faculdade ressaltando o niilismo pertinente a obra. Esse é um ensaio que eu ainda devo escrever. Mais uma vezes, parabéns pelo projeto e pela resenha.

    Resposta
  1. #60 falso brilhante | 1001 DISCOS BRASILEIROS PARA OUVIR ANTES DE MORRER

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