#01 Macunaíma: O Herói Sem Nenhum Caráter

Título: Macunaíma: O Herói Sem Nenhum Caráter

Autor: Mário de Andrade

Primeira Publicação: 1928

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Villa Rica

“Ai, que preguiça!”

O primeiro livro de nossa biblioteca foi escrito pelo paulista Mário de Andrade em 17 capítulos (e epílogo), Macunaíma: O Herói Sem Nenhum Caráter mostra um protagonista nascido em uma tribo amazônica e atraído pela cidade grande na era das grandes máquinas. Macunaíma seria a representação do povo brasileiro, seu universo lendário e linguajar único. Com isso, muitos estudiosos e pesquisadores consideram a obra uma rapsódia, gênero da literatura que une diversos temas de inspiração folclórica. O autor conhecia muito bem esta modalidade artística devido à sua formação musical (o termo advém da tradição poética e oral grega, de autores como Homero), sabendo culminar seu conhecimento a cerca de mitos indígenas e contos da tradição popular na composição do seu texto.

No início do livro, vemos que o personagem, ainda criança, já se apresenta como um menino mentiroso, traidor, safado (no sentido libidinoso da coisa) e de boca suja, além de ser extremamente preguiçoso. A preguiça, por sinal, caracteriza muito bem o protagonista, que passa calado seus primeiros seis anos de vida simplesmente por não querer se esforçar para proferir alguma palavra. Mesmo criança, já procura prazeres amorosos com uma cunhada. São nas “brincadeiras” (leia transas) que o protagonista inicia seu processo de metamorfoses que percorre toda a história, tomando formas diversas dependendo das situações vividas. Abandonado pela mãe, por suas muitas traquinagens, o protagonista topa com o Curupira e a Cotia que, jogando calda envenenada de mandioca em cima do anti-herói, o faz crescer ao tamanho adulto.

Macunaíma então encontra o amor nos braços de Ci, a Mãe do Mato. Do coito, nasce um filho que morre de forma prematura. Triste, Ci decide abandonar a vida, subindo ao céu e se transformando numa estrela. Antes de partir, entrega ao amado seu muiraquitã, amuleto indígena de muito valor. Perdendo o presente, Macunaíma parte para a cidade de São Paulo, onde residia o homem que supostamente o havia encontrado. Junta os irmãos Maanape e Jiguê e parte em viagem. A história, a partir daí, começa a discorrer contando as aventuras do anti-herói na tentativa de pegar de volta seu amuleto.

A narrativa na obra se dá de forma linear, apesar de se apresentar em estrutura intrigante, em que se apresentam aspectos oníricos e surrealistas. O foco narrativo é predominantemente de terceira pessoa, apesar de o autor também utilizar a técnica de cortes bruscos no discurso do narrador, interrompendo-o para dar vez à fala dos personagens. A linguagem utilizada aproxima a modalidade escrita à fala, apresentando também a ideia do autor em criar uma gramática da língua brasileira, se afastando da estrutura dos portugueses, através de várias substituições no corpo do texto, tais como “se” por “si” e “cuspe” por “guspe”.

Destaco a leitura do capítulo V, em que é narrada a chegada de Macunaíma e seus irmãos à cidade grande de maneira bastante interessante, parecendo uma inversão das cartas escritas pelos grandes navegadores quinhentistas, com o índio se deparando com a terra “civilizada” e procurando assimilá-la com sua própria carga cultural. O capítulo IX também dialoga com a literatura epistolar, agora em crítica ao “brasileiro falado e o português escrito”, através de uma carta escrita pelo protagonista às Icamiabas, amantes que deixara na Amazônia.

Com Macunaíma, Mário de Andrade faz um retrato pungente do Brasil, resgatando o imaginário popular e as tradições nacionais através das concepções modernistas. Ao contrário do nosso anti-herói, não tenho preguiça em dar a este livro um lugar excepcional nesta lista.

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Referências Utilizadas:

ANDRADE, M. Macunaíma: O herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Villa Rica Editoras Reunidas Limitada, 1992.

BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. pp. 346-355.

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Filmoteca: Macunaíma (1969). Filme dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, com Grande Otelo, Paulo José, Dina Staf e Jardel Filho.

Indico aos leitores o longa metragem feito em adaptação livre da obra. A história de Macunaíma se tornou um dos maiores clássicos do cinema brasileiro, o que muito se deve ao mágico enredo de Mário de Andrade. Destaco a cena do “embranquecimento” do protagonista que, no filme, acontece de maneira bem diferente.

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Musicoteca: Macunaíma Ópera Tupi (2008). Disco da Iara Rennó.

Indico aos leitores este disco totalmente inspirado no livro de Mário de Andrade para acompanhar sua leitura. As faixas tem como mote a trajetória do nosso anti-herói, com cada verso sendo extraído da obra com certa fidelidade, refletindo sua diversidade multicultural através de uma mistura bastante interessante de elementos musicais. O álbum ainda traz a participação mais que especial dos gênios Tom Zé e Arrigo Barnabé.

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