Extrato Poético: Roberto Piva

A Piedade 

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema
paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos
sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me
fariam perguntas: por que navio boia? Por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas de
fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou
barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho
todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos pavimentos
Os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos

Roberto Piva in ‘Um Estrangeiro na Legião’ (Editora Globo)

Extrato Poético: Ledusha Spinardi

Errata

onde lia-se desejo
leia-se despejo

não quero mais
essa vertigem de vogais
– tantos ais –
como se fossem consoantes

Ledusha Spinardi in ‘Finesse e Fissura’ (Editora Brasiliense)

Citação – Marina Colasanti

“Os livros fundamentais não são aqueles que a gente considera fundamental. Cada livro conquista o leitor em um determinado momento e de uma forma, de uma maneira profunda e por razões que nem ele nem o autor jamais saberão explicar. E este momento, esta epifania, faz esse livro ser fundamental para esse leitor.” – Marina Colasanti

#73 Até Você Saber Quem É

Título: Até Você Saber Quem É

Autor: Diogo Rosas G.

Primeira publicação: 2016

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

“A inteligência, a sensibilidade e a espiritualidade de Satã são sempre exatamente proporcionais à inteligência, à sensibilidade e à espiritualidade do indivíduo sobre quem ele está trabalhando.”

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#72 Entropia

Título: Entropia

Autor: Alexandre Marques Rodrigues

Primeira publicação: 2016

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

 “Gozar, como morrer, ela disse, didaticamente, é um processo irreversível.”

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Extrato Poético: Carlos Drummond de Andrade

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade in ‘Sentimento do Mundo’ (Editora Record)

#71 Nunca o Nome do Menino

Título: Nunca o Nome do Menino

Autor: Estevão Azevedo

Primeira publicação: 2008

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

 “Qual foi meu primeiro parágrafo?”

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#70 O Noviço

Título: O Noviço

Autor: Martins Pena

Primeira publicação: 1853

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora L&PM

“No mundo a fortuna é para quem sabe adquiri-la.”

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#69 Serafim Ponte Grande

Título: Serafim Ponte Grande

Autor: Oswald de Andrade

Primeira publicação: 1933

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Globo

“Serafim, a vida é essa.”

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Extrato Poético: Armando Freitas Filho

Corpo

Acrobata enredado
em clausura de pele
sem nenhuma ruptura
para onde me leva
sua estrutura?

Doce máquina
com engrenagem de músculos
suspiro e rangido
o  espaço devora
seu movimento
(braços e pernas
sem explosão)

Engenho de febre
sono e lembrança
que arma
e desarma minha morte
em armadura de treva.

Armando Freitas Filho in ‘Máquina de Escrever’ (Editora Nova Fronteira)

Extrato Poético: Leila Míccolis

Efeitos Óticos

Quanto mais se envelhece
mais os mortos se aproximam.
Mas a conversa é difícil:
eles usam expressões diáfanas,
ectoplásticas,
e sussurram sombras.

Às vezes,
figuras nos muros grafitam;
outros,
em torno da palavras gravitam.

E sempre que se vão,
atravessando tijolo,
concreto, cimento e cal,
nos deixam a confirmação

– nenhuma parede é real.

Leila Míccolis in ‘Desfamiliares’ (Editora Annablume)

#68 Neblina

Título: Neblina

Autor: Adalgisa Nery

Primeira publicação: 1972

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

“Tudo era mudo e nessa mudez recebi o mistério dos grandes elementos da vida e da morte.”

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#67 Memórias Póstumas de Brás Cubas

"Memórias póstumas de Brás Cubas"Título: Memórias Póstumas de Brás Cubas

Autor: Machado de Assis

Primeira publicação: 1881

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Scipione

“Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.”

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Literafilia: Sobre Poesia Marginal

No Brasil dos anos 1970, o regime militar ao mesmo tempo em que tentava proibir qualquer tipo de produção e comportamento que pudesse causar dano à sua estrutura, acabava por incentivar o surgimento de impactantes movimentos culturais atrelados à emergente juventude nacional.  Em meio a um ambiente de repressão, violência e vazio criativo, a nova geração sofreu uma metamorfose comportamental, ganhou voz e grande expressão, originando importantes rupturas em relação às concepções estéticas até então vigentes. O surto criativo que subverteu os padrões oficiais da literatura lançada na época adveio justamente do inconformismo com os moldes impostos pelas esferas acadêmica e política. A formação de uma poética “fora do sistema”, à margem da tradição, possibilitou a liberdade das amarras do conservadorismo intelectual através da escrita. Os versos sujos e irreverentes de notáveis desconhecidos ganhariam, mais tarde, respeitável destaque na historiografia de nossas letras, influenciando e inspirando, inclusive, muito do que é feito na contemporaneidade.

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#66 Welcome to Copacabana & Outras Histórias

Título: Welcome to Copacabana & Outras Histórias

Autor: Edney Silvestre

Primeira publicação: 2016

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

Welcome ao bairro das mijonas, dos shows gratuitos com bandas de roqueiros idosos, das micheteras, dos ladrões de celulares, dos pivetes, dos desocupados, dos camelôs, dos mendigos, dos catadores, dos aposentados, das multidões diurnas pelas ruas formigantes, das viúvas e dos réveillons superlotados como o desta noite.”

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